SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

A CATIVANTE ILICITUDE


*Rangel Alves da Costa


Muito se combate a filantropia eleitoral. Argumenta-se que as atividades filantrópicas desenvolvidas por candidatos nada têm de altruísmo humanitário, vez que sempre objetivando angariamento de votos. Num gesto que a muitos seria apenas um ato de bondade, sempre o ocultamento de objetivos menos nobres, ao menos para o eleitor cativado pela esmola eleitoreira. Nesta seara, configurariam abuso de poder econômico se realizadas em período próximo ao pleito, ou mesmo no ano eleitoral, como ocorre agora.
O mesmo se diga com relação à promoção pessoal dos pretensos candidatos. E logicamente que muitos procuram se promover a todo custo, mas principalmente pela ação perante comunidades carentes e barracos caindo aos pedaços. Chegam em festim, alardeiam mundos e fundos, concedem dádivas, pagam contas, distribuem benesses, porém nada mais que buscando assegurar os votos daqueles beneficiados. Do mesmo modo, se os recursos utilizados ferirem o princípio da isonomia, depreende-se haver abuso de poder econômico. A ação benemérita e a promoção seriam ilícitas, ilegais aos olhos da justiça eleitoral.
Como observado, a legislação eleitoral procura inibir ou não permitir que pretensos candidatos utilizem o poder econômico para angariar votos. E em muitas situações, principalmente nas regiões mais distantes e de flagrante empobrecimento, isto se dá através da distribuição de alimentos, remédios, materiais de construção, água, etc. Em ano eleitoral ou nas proximidades do pleito, seria impensável que pleiteantes agissem de modo a - sob a aparência de estarem simplesmente ajudando pessoas necessitadas - mercantilizar a vontade do eleitor.
Contudo, o que fazer quando se está diante da ausência dos poderes que deveriam suprir as necessidades básicas da população carente e perante aqueles que procuram colocar, por exemplo, comida no prato e água na cisterna? O que fazer quando a pessoa pobre, que seja eleitora ou não, deixa suas preocupações de lado e vai correr atrás, verdadeiramente esmolando, quando sabe que um candidato, parlamentar ou liderança política, chegou em visita? O que fazer quando a carência e a desvalia de tudo são tão alarmantes que deixariam envergonhadas a moralidade, a legalidade, a própria justiça?
É uma questão deveras melindrosa, principalmente se for considerado que a pobreza não pode ser ainda mais penalizada pela lei eleitoral, que ao invés de combater todas as ilicitudes, apenas elege focos de atuação. Neste sentido, tenha-se que a lei nem sempre pune com a perda de mandado aqueles que flagrantemente abusaram do poder econômico, ainda que denunciados e processados. Mas impede que candidatos prestem favores às classes mais desfavorecidas. Há casos em que mesmo o amontoado de provas verossímeis sobre abuso do poder econômico não são suficientes para mudar o resultado de um pleito. Aos olhos da justiça não houve crime. Então será crime dar o pão, pagar a conta, fornecer um botijão de águas, um saco de cimento?
Sim, a lei diz que é crime um candidato chegar numa comunidade pobre ou numa povoação predominantemente carente e distribua cestas de alimentos. Também é crime puxar do bolso dinheiro e fornecer para pagamento de conta de luz, de água, da padaria ou da mercearia, ou mesmo para comprar um botijão de gás. A lei também não permite que o pretenso candidato forneça uma carrada de água para que o gado e o homem sedentos bebam do tanque ou da cisterna. A lei, agindo com as cegas da justiça, estará punindo muito mais a pobreza do que o candidato. Este leva o processo adiante, elege-se, assume e termina o mandato. E a pobreza, pode esperar?
Não tenho conhecimento se algum julgador eleitoral já foi buscar elementos de convicção bem à porta do barraco, dentro do casebre, nos fundos da casinhola, na despensa e na cozinha, por dentro da panela vazia sob o fogão de lenha, no rente carcomido da madeira da mesa. Não sei se o julgador eleitoral carrega na sua pena aquela outra pena, a da comiseração, que escreve por linhas tortas na vida de um povo inteiro. Que se julgue o crime, que impeça candidaturas, que tire o mandato daqueles que cometeram abusos. Mas qual o vulto de uma cesta de alimentos perante a dinheirama toda que corre solta e que a justiça, muitas vezes, vergonhosamente dilui ou simplesmente não quer enxergar?
Não se defende, aqui, a legalidade do ilícito nem a interpretação distorcida da lei, de modo a minimizar o cometimento de ilegalidades. O que está ilegal, contudo, é deixar de avistar a realidade social em nome da norma proibitiva. O que está errado, e completamente errado, é deixar que a frieza da norma se sobreponha à fome, à sede, à carência, à desvalia de tudo. Que a firmeza da lei recaia primeiro sobre as eleições forjadas em milhões, sobre os abusos milionários cometidos, e não apenas sobre uma cesta básica concedida.
A lei tem de sair do código e caminhar pelas ruas, tem de abdicar de seu trono e conhecer o mundo real, tem de guardar sua toga e ir conhecer o quanto sofre uma família inteira desde o amanhecer ao anoitecer, e tudo por falta de tudo. Não há pão para a criança que chora, não há remédio para quem sente dor, não há esperança de futuro para quem deseja somente viver. O alento que chega é - e quase sempre - através do candidato e sua cativante ilicitude.


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Lá no meu sertão...


Mestre Tonho e sua arte


Você mudou (Poesia)


Você mudou


Você não era assim
mas você mudou
um anjo querubim
que logo voou
uma flor em viço
que perdeu a cor
a mais doce palavra
que já silenciou

por que se fez assim
meu anjo querubim
eu amava tua flor
e todo teu jardim
não foi um outono
nem nada assim
se foi por desamor
que volte pra mim.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - urubus


*Rangel Alves da Costa


Coitados dos urubus que avoejam pelos ares em busca de qualquer apodrecimento para saciar sua estranha fome. Estes são inocentes demais perante certas pessoas. Estes são como pássaros do paraíso perto de determinados seres humanos. Aliás, muitas pessoas - e muitas mesmo - são infinitamente piores que todas as aves carnicentas, agourentas, de presságios ruins. Coitado do urubu, do gavião, do carcará, do abutre, da rasga-mortalha. Coitado do bicho perto do humano. Pessoas existem que são mais podres que as carniças tão desejadas pelos seus deploráveis instintos. Pessoas existem que são mais destrutivas que os bicos afiados e sujos de sangue das rapinas. Pessoas existem que são mil vezes mais agourentas que um milhão de rasga-mortalhas. Vivemos rodeados de uma verdadeira selva. Já conhecemos os lobos pelas ações violentas, pelos uivos que não escondem os ataques. Já conhecemos as cobras pelas espreitam que sempre fazem e pelos botes que traiçoeiramente dão. Mas nada igual aos urubus humanos, aos carnicentos humanos, cujo olhar, voz e expressões, para outra coisa não servem senão premeditar a maldade no outro, a caída do outro para que se refastelem de seus restos. Para que? Nada. Apenas pela maldade. Desejam carniça nos outros, mas acabam engolindo seus próprios vermes.


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domingo, 21 de janeiro de 2018

A DOR DA MÃE-DA-LUA


*Rangel Alves da Costa


Noite alta, escura demais, tristonha nas suas sombras retintas. As folhagens murmurejantes pela ventania, galhos zunindo nos escondidos da mata. Quase um silêncio. Quase.
No meio da mata, na incerta escuridão, um canto chorado e agonizante. Os lobos uivam suas tristezas e solidões noturnas. Os bichos lamentam seus instantes com gritos, brados e urros. Mas aquele choro agonizante era estranho demais.
Era uma mãe-da-lua, ave temida pelo seu canto agourento ou pelo mau pressentimento causado pela sua presença, mas que naquela escuridão chorava sua dor. Ninguém fugia de seu canto, ninguém temia sua presença, pois ela, afastada de tudo, apenas chorava.
Urutau, por que chora assim? Ayaymama, por que tanta dor? Uruvati, por que lamento tão triste? Kúa-kúa, por que tão incessante tristeza? Urutágua, por que o seu cantar chora como dilacerada viuvez? Tudo teu nome, mãe-da-lua, mas com o mesmo motivo de sofrimento.
Diz a lenda que a mãe-da-lua é a ave protetora da virgindade. A mãe que quiser manter a filha virgem deverá recolher suas penas e com elas fazer uma vassoura para varrer por onde a sua virgem for passar. Estará livre dos ataques enamorados antes da hora.
Ou mesmo fazer um adorno para que a filha use e assim fique livre das tentações da carne. Sob a proteção das penas da mãe-da-lua, os clamores da carne e do coração se tornarão tão prudentes que nem o mais belo príncipe conseguirá antecipar os desejos do amor.
Assim fez uma mãe. Vivendo numa tribo, a filha dos nativos era tida como aquela nascida do beijo da lua. Não havia beleza igual. Por isso mesmo que os seus se esmeravam na proteção. Tudo faziam para que a bela virgem não caísse nas tentações amorosas.
A mãe preparou-lhe adornos com as penas da ave, fez colar e enfeites para os cabelos, de modo que a menina mais parecia um ser emplumado de inigualável beleza. Não obstante isso, a todo instante seu local de repouso era varrido com vassoura de penas.
Contudo, um dia apareceu na tribo um belo jovem e a menina se apaixonou. O rapaz ficou tão encantado que sequer sabia como expressar aquele repentino amor. Começaram a se encontrar às escondidas, mas logo o pai da menina descobriu.
Ao descobrir aquele indesejado romance, o pai logo planejou dar fim ao jovem. Esperou-o enquanto passasse na selva e levou a cabo seu funesto plano. E assim o jovem de repente sumiu aos olhos de todos. A menina, sem saber o que tinha acontecido, chorou rios de lágrimas imaginando haver sido abandonada.
Contudo, um dia, se querer ouviu o seu pai segredando à sua mãe o que tinha feito. Desesperada, porém não acreditando que ele havia morrido, ela correu e se embrenhou na floresta atrás de seu amado. Quando mais se distanciava mais gritava o seu nome. Mas nenhuma resposta aos seus rogos.
De repente ela ouviu uma voz e uma confissão. E a voz dizia: “Sou eu, seu amado, que não existo mais pelas mãos de seu pai. Mas saiba que eu te amarei para sempre”. Quase em tempo de enlouquecer, ela voltou correndo e entrou na sua morada já gritando: “Vou contar tudo o que você fez!”.
O pai, velho feiticeiro, no mesmo instante transformou-a numa ave. Mas não numa ave qualquer, mas sim numa ave noturna que não fosse reconhecida na escuridão. Não queria que o povo ficasse sabendo de sua maldição.
Contudo, a maldição não impediu que a voz da menina passasse à ave. Por isso mesmo que todas as noites ela surge para entoar o seu canto de dor, sua tristeza infinita. Por isso mesmo tanta dor na mãe-da-lua.
Não uma ave agourenta, mas um ser de dor transformado em dor ainda maior.


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Lá no meu sertão...


Eu


Nuvem de saudade (Poesia)


Nuvem de saudade


Chorei não
um solucinho só
apareceu uma nuvem
assim de saudade
e eu me molhei
aqui dentro de mim
um tiquinho só
um tantinho assim

mas fecho os olhos
e avisto tanta saudade
que tenho medo
que venha tempestade
e eu não possa fingir
que choro a dor
que eu vou sentir.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - a doença petismo e a síndrome lulismo


*Rangel Alves da Costa


A doença petismo é mal incurável. Não que não exista remédio, vez que bastaria que os seus portadores desejassem se curar, mas por que se afeiçoa a um fim consentido e premeditado. O petismo prefere sucumbir a aceitar o erro. O petismo prefere o completo exaurimento a fazer uma autocrítica. O petismo prefere afundar de vez a pegar na mão salvadora da verdade. O petismo prefere morrer a tentar refazer-se, prefere sucumbir pelos próprios erros a reconhecer que fracassou nos seus objetivos de poder e dominação. Para o petismo, por exemplo, todo petista acusado ou já condenado é mártir, é santo, é de sagrada honradez. É uma doença ou não é? E o pior é que na doença petismo há uma síndrome mais irreversível ainda, mais cruel e devastadora: o lulismo. Aquele contagiado pelo lulismo logo se torna em sinônimo de negação de tudo, de si mesmo, da realidade, da justiça, do mundo ao redor. Só lhe chega como verdade a ilusão, a fanática utopia, a contramão de toda a realidade existente. É como um fantasma levantado do túmulo de Antares (da obra de Érico Veríssimo) a esbravejar contra tudo e todos, pois o seu ídolo de barro está sendo despedaçado pelo sopro das asas da borboleta, de tão fragilizado que é. Pisa sobre o pó dos restos e ainda esbraveja estar diante de um deus. Não há cura para um mal assim.


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sábado, 20 de janeiro de 2018

MEU SERTÃO COMO DESTINO E SINA


*Rangel Alves da Costa


Não vai demorar muita e estarei retornando a Poço Redondo de mala e cuia. Isso mesmo, retomar o caminho de casa e novamente fincar moradia no meu berço de nascimento. Ainda não fiz isso por que não avistei um meio de sobreviver com dignidade na terra sertão. Quer dizer, de me manter como me tenho mantido até agora. E o custo de vida é mais alto que se imagina.
Minha profissão e meus ofícios não terão muita serventia, principalmente por que não pretendo advogar em Poço Redondo. Impossível advogar - defender uma parte num processo - quando todos são amigos. E basta eu representar alguém ou família até em coisa simples, como um divórcio ou inventário, e os outros já catarão pedras para jogar sobre mim. Não quero assim. Só tenho amigos em Poço Redondo, fato que dificulta até cobrar um valor justo por uma ação.
Difícil dizer, mas até hoje não consegui juntar nada de dinheiro que sirva como garantia futura. Não tenho carro, não tenho casa própria, não tenho anel dourado no dedo, não tenho valores em bancos, não tenho cartão de crédito ilimitado. Não tenho luxo em nada nem procuro ter além do que realmente necessito. Na verdade, só tenho eu mesmo e o que sou.
O que sei pelo estudo e esforço, certamente não teria qualquer valia numa feira, num mercadinho, no pagamento de contas. O mundo é do dinheiro e dinheiro não tenho. Escrever, como sempre faço, alimenta a alma, mas não o organismo. Mantenho o Memorial Alcino Alves Costa com o maior esforço do mundo, e assim o faço como se minha própria vida estivesse em meio aquele acervo.
Nunca trabalhei em prefeitura (a não ser num breve período de dois meses que fui nomeado secretário de cultura do prefeito Roberto Godoy, mas forçado a deixar a função após o seu rompimento político com meu pai) e certamente não trabalharei. Dificilmente uma prefeitura vai querer nos seus quadros uma pessoa que pensa e que tem voz própria.
Ademais, jamais aceitaria trabalhar numa prefeitura ou órgão qualquer e depois ser forçado a me submeter ao nojento submundo da bajulação, do puxa-saquismo, da adulação. Do mesmo modo, jamais transformaria minha ética pessoal e minha conduta em nome da defesa do indefensável.
Mas retornarei assim mesmo. Quem sabe eu transgrida meu íntimo e acabe abrindo um escritório de advocacia. Pouco importa que eu defenda uma parte conterrânea contra outra parte conterrânea. Haverão de entender que minha ação é profissional e não por escolha ou gosto pessoal. Pensarei mais sobre isso.
Contudo, a minha vontade mesmo era de retornar e passar a viver afastado do centro. Uma casinha no mato, uma rede, um silêncio e um papel de escrita. E então eu estaria realizado e seria a pessoa mais afortunada do mundo: a riqueza de ter apenas aquilo que gosta. Nada mais que isso.
Que vida boa e que encanto de viver. No meio do mato, juntinho à natureza, acordando na madrugada, caminhando pelos arredores, conversando com os bichos, vivendo em profundidade. Tudo na simplicidade e singeleza do mundo. Abraçando a terra como manto sagrado que alimenta a vida.
Assim retornarei ao sertão, ao meu berço de nascimento. E vou em busca da lua maior, do sol mais quente, da terra mais calorosa e do bucolismo que tanto bem faz ao coração. Um viver tão simples que até o passarinho me chamará para voar.


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Lá no meu sertão...


Velho Chico, num tempo de águas tantas...



Já é noite (Poesia)


Já é noite


Já é noite
e o meu silêncio
ainda não veio
e a minha solidão
ainda não veio
e a minha tristeza
ainda não veio

o que será então
será que estou feliz
que estou amando
não e não
é que fechei os olhos
e avistei a saudade.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - na minha mão um sertão


*Rangel Alves da Costa


Caminhando pelo estradão, em meio ao calor e à desolação, adentro num mundo de maior comoção: o sertão. Olho de canto a outro, chamando na boca oração, pedindo aos céus um pouco de comiseração. Mandacaru sem cor, tudo em esturricação, um bicho morto, um voo de gavião. Abaixo o olhar e vejo uma ossada em branquidão. Uma vaca morta já sem podridão. Levanto um osso com admiração. Na minha mão tenho um sertão. Ou será que não? Mas ainda ouço um mugido, um berro, uma desvalia de dor e de aflição. Já não existia mais, apenas a carcaça ao chão. Mas quando levantei senti a seca torrando tição. Quando segurei na mão senti na secura da terra a devastação. Então eu disse, é mesmo o sertão!


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sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

AMOR ENTRE IRMÃOS


*Rangel Alves da Costa


Revendo os velhos álbuns de Poço Redondo, entre molduras e saudades tantas, eis que vou me surpreendendo com situações, fatos e acontecimentos, que cativam ainda mais o meu passo de historiador sertanejo.
Coisa mais bela, mais docemente singela, saber que nas distâncias do tempo dois irmãos (um homem e uma mulher) se apaixonaram por dois irmãos (um homem e uma mulher).
Assim aconteceu com José Francisco do Nascimento (Zé de Julião) e sua irmã Maria Madalena de Santana (Neném de Libel), ao se apaixonarem pelos irmãos Enedina Saturnino e Liberato Saturnino de Santana (Seu Libel).
Assim, Zé de Julião e Neném, irmãos e filhos de Seu Julião do Nascimento e Dona Constança do Nascimento, dentre tantas sertanejas e sertanejos, tiveram seus corações despertados bem dentro do mesmo seio familiar.
Coisa rara de acontecer, mas aconteceu. Zé de Julião casou com Enedina, e sua irmã Neném casou com Seu Libel. Assim, os irmãos Enedina e Libel casaram com outros dois irmãos: Zé de Julião e Neném.
Sabido é que depois de casados, Zé de Julião e Enedina adentraram no bando de Lampião, ele com a alcunha de Cajazeira e ela continuando com o mesmo nome. Aliás, em toda a história do cangaço, foi o único casal existente. Os demais eram apenas conviventes ou companheiros.
Por força do destino, a união entre Zé de Julião (Cajazeira) se desfez em 38 quando ela morreu juntamente com mais dez cangaceiros na Chacina do Angico. Na fuga desesperada, um tiro acertou-lhe a cabeça que destroçou os miolos.
Após o fatídico episódio, e já saído das hostes cangaceiras, Zé de Julião passou a conviver com uma cunhada, de nome Estela, irmã de Enedina e Seu Libel (além de outros irmãos).
Não se sabe se pela vontade de continuar na mesma linhagem de sua falecida esposa, mas a verdade é que passou a conviver com Estela. Fato de aceitação familiar, principalmente pela honradez que Zé de Julião carregava consigo.
Portanto, a união familiar continuou e ainda hoje, principalmente com relação ao saudoso casal Dona Neném e Seu Libel, é avistada em grande prole pelos filhos, netos, bisnetos e tataranetos, que orgulhosamente se espalham pelas terras sertanejas e mais distantes.


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Lá no meu sertão...


Casa sertaneja ao sombreado do entardecer



Menina bonita (Poesia)


Menina bonita


Na janela
de um mundo longe
avisto a bela
e a bela e sonhadora
imagina ser
aquela princesa
que já é
em flor
e fruto

depois sai da janela
caminha descalça
rosa no cabelo
de vestido de chita
e o pássaro canta
tão bonita
e repete
tão bonita
bonita.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - a pedra só


*Rangel Alves da Costa


A pedra só. Espera, espera, pra virar pó. A pedra só, tão dura, tão impávida, tão insensível. Tudo assim, para depois ser apenas pó. A pedra só. Só uma pedra, mas tão gigantesca que mais parece ser dona do horizonte e de tudo ao redor. Mas depois vai virar pó. Na pedra, o pó são os minúsculos grãos de sentimentos que sozinhos até choram, até sorriem, até falam, até silenciam, até vivem normalmente. Mas quando o pó se junta ao pó, e grão a grão vai formando algo maior e cheio de esnobês, então os sentimentos juntados se perdem na dureza petrificada. E a pedra passa a esquecer de todo o passado e a viver apenas para si mesma, com sua arrogância e soberba, imaginando ser mais forte que tudo. Não pensa que o ferro enferruja, que a ferrugem se dilui na maresia, e que com tudo assim também acontece. Até que um dia uma leve ventania vai desfolhando tudo e o que era pedra em pó vai novamente se transformando.


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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

CULTURAS, TRADIÇÕES E RESISTÊNCIAS NO SERTÃO SERGIPANO - II


*Rangel Alves da Costa


Como dito, os leilões rarearam, mas ainda resistem num canto e noutro pelas vastidões sertanejas. Rareou quase tudo tão costumeiro e tão tradicional noutros antigamente. Para uma ideia do esvaziamento da tradição, até mesmo o forró autêntico, o chamado pé-de-serra, do zabumba, triângulo e pandeiro, somente é possível ser avistado nas salas de reboco mais afastadas da cidade e em ocasiões muito especiais. Tamanho esquecimento perante os festejos modernos, fez com que em Poço Redondo, nos sábados à noite, surgisse um local especialmente criado para que os mais velhos possam dançar e chinelar até a canseira chegar.
As tradicionais novenas ainda são celebradas em ocasiões especiais, principalmente nas semanas dedicadas aos santos ou quando as secas se alastram e as forças sagradas são chamadas a agir. Agora em número reduzido de beatas e outras devotas, escolhem as casas dos ofícios daquela noite e pelas ruas seguem levando a imagem dos santos nas mãos. Durante nove dias - daí o nome novena - as residências se preparam para receber o santo e seus acompanhantes. Na cidade ou pelos arredores, uma mesinha é recoberta por toalha branca rendada, sendo a imagem do santo colocada ao lado de um jarro de flores, geralmente de plástico. O que importa é a fé, como dizem as velhas senhoras enquanto entoam cantos e orações. As novenas são feitas para pedir uma graça, para agradecer pela graça alcançada ou para louvar a Deus ou aos santos.
É, pois, através da fé, que a persistência de um povo se mostra em maior vigor. As procissões, contudo, tão costumeiras que eram noutros tempos, e mais de perto quando através delas se mostravam os sacrifícios pela fé, hoje ganharam lugar de destaque nas datas festivas da religiosidade, como quando das festas das padroeiras locais. Entretanto, em épocas de estiagens mais prolongadas, quando os rogos do povo precisam ecoar com mais força perante os santos, ainda é possível avistar pelas estradas pequenas procissões a São Pedro, o santo das chuvas, e a São José, o protetor dos sertanejos.
Mas tradições religiosas existem que, mesmo com número cada vez menor de adeptos, ainda continuam pelos sertões. É neste sentido, como se pedissem um dia dadivoso para todos, que logo aos primeiros clarões do dia as beatas e outras senhoras se reúnem nas igrejas para rezas e orações. Quem passar nas proximidades do templo católico certamente ouvirá: “Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco; bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria Mãe de Deus, rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte. Amém”. E a prece cantada: “Dai-nos a bênção, ó Virgem Mãe, penhor seguro de sumo bem. Dai-nos a bênção, ó Virgem Mãe, penhor seguro de sumo bem. Vós sois a rosa de puro amor, encheis a terra de puro odor...”.
De suas vozes, e todas as vozes sertanejas, as canções e os hinos tão sublimemente enaltecedores como tristonhos, eis que também ecoados nos ofícios de despedidas, nas sentinelas e incelenças, como se aquelas vozes fossem ecos de um além tão próximo de todos e a todos chamar à reflexão da vida, da morte, da fé, da valorização das verdades cristãs. Assim como o Ofício da Imaculada Conceição: “Agora, lábios meus, dizei e anunciai os grandes louvores da Virgem Mãe de Deus. Sede em meu favor, Virgem Soberana, livrai-me do inimigo com o vosso valor. Glória seja ao Pai, ao Filho e ao Amor também, que é um só Deus em Pessoas três, agora e sempre, e sem fim. Amém... Ouvi Mãe de Deus, minha oração. Toquem vosso peito os clamores meus... Sede em meu favor, Virgem Soberana, livrai-me do inimigo com o vosso valor...”.
Enquanto isso, ainda dobram os sinos das igrejas sertanejas ao alvorecer e ao anoitecer. Chama aos ofícios religiosos, mas também anunciando despedidas terrenas. De rosário à mão, chega uma e mais outra beata. A fé diminuiu em tamanho, mas não em louvação. E lá fora, da porta da igreja adiante, as cidades vivem os seus dias sempre novos, tomados de modernidade. Tudo parece fazer esquecer o jeito de viver de outros tempos. Uma sofrência numa vitrola, uma canção brega nas alturas, uma voz que entoa uma música qualquer. Mas por que assim, quando ainda há tempo de ser nova preservando as profundas e tão belas raízes históricas, culturais e tradicionais?
É que a cultura e a tradição do povo sertanejo somente persistem sob algumas condições. Quando a força da tradição vive no sangue familiar ou pela íntima abnegação, como ocorre com os Pífanos da Família Vito e os cavalheiros, quando a beleza do folguedo começa a atrair e a chamar os mais jovens, como ocorre com os grupos de xaxado, ou quando os governos municipais criam grupos para preservação de manifestações culturais. Somente em tais situações há que se falar em permanência do tão rico e vasto patrimônio cultural sertanejo.
Entretanto, fator preocupante é saber se, mesmo assim, haverá continuidade em tal processo de preservação. Criou-se um descompasso tamanho entre o tradicional e o moderno que qualquer apresentação de uma cavalhada, de um xaxado ou de qualquer outro grupo folclórico, acaba se tornando em algo de grande estranhamento a muitos. Significa que o que era costumeiro, hábito local, transformou-se em acontecimento excepcional. Muitos, principalmente os mais jovens, ficam boquiabertos com as apresentações. Desconhecem completamente suas raízes.
Observação: O presente texto foi originalmente publicado na Revista Cumbuca, Ano V, n. 16, Aracaju/Edise.


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Lá no meu sertão...


De um álbum antigo... O menino que somos na eternidade que levamos!




É amor (Poesia)


É amor


Se há doçura
no fel
inverso sabor
é o amor
é amor

se no salgado
há mel
reverso sabor
é o amor
é amor

se no coração
um fogaréu
de leve queimor
é o amor
é amor

é o amor
meu amor
nosso amor...


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - a Gruta do Angico e a raiva de Lopeu


*Rangel Alves da Costa


A GRUTA DO ANGICO E A RAIVA DE LOPEU - Soltou Lopeu, raivoso virado na gota serena: Seu Titó e Dona Ambrosina, tem coisa que num vou aceitá é nunca, nunquinha da sirva mermo. Cuma é que a Gruta do Angico, no tar buraco de Lampião, que derna molecote eu sei que é no Poço Redondo, vem gente de fora e toma conta de tudo? Vi dizê cumpade e comade, que pru lá um prato de comida é pra mais de mião, dinhero que pobe num tem nem vendeno a fiarada toda, que uma água minerá é mais cara que as água toda do rio, que pá chegá e pá sair tem de andar de mansim e aina pru riba pagar. Quem já se viu uma molesta dessa? Nunquinha que eu vi dizê que tá certo os outo ganhar uma dinheirama toda em riba do que é meu e eu num ganhar vintém. Bem ansim é Poço Redondo. Todo mundo enrica e Poço fica de carça na mão. Mai tomem é pruquê num tomaro conta direito do tar buraco de Lampião. E lugar que num tem dono quarqué um de dono se faz. Se Lampião tivesse vivo num ia gosta disso não, apois tem munta gente ganhano dinhero no buraco dele. E o que o Poço ganha? O que a outa ganhou no beco. Num é ansim que o povo diz?


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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

CULTURAS, TRADIÇÕES E RESISTÊNCIAS NO SERTÃO SERGIPANO - I


*Rangel Alves da Costa


Com o passar dos anos, as raízes culturais de um povo tendem a esmorecer, principalmente quando as novas gerações já não se interessam mais pelas tradições, pelos costumes e rituais de seus antepassados. Os mais jovens, envoltos que vivem perante as chamas e tentações dos modismos, passam a simplesmente relegar ao esquecimento aquilo que sua família ou sua comunidade sempre valorizou.
Dificilmente um jovem vai ser encontrado talhando madeira para construir um cavaquinho como seu pai e seu avô faziam no passado. Dificilmente uma jovem vai pedir a sua mãe ou parentes que lhe ensinem a rodar como rodam as pastorinhas. Nem ciranda debaixo da lua nem cantiga de roda se avista mais. Será uma raridade encontrar alguém da juventude preservando de corpo e alma os velhos folguedos e as antigas tradições. A situação só muda quando está no próprio sangue familiar o senso da preservação ou quando o jovem sente que participando de grupo folclórico estará alçado à condição de artista.
Mas nem tudo está perdido. Pelo contrário, tudo ainda está garantido, não com a força que se esperaria, mas com a semeadura suficiente para a preservação. E assim por que as culturas, as manifestações folclóricas, os folguedos e outras tradições, ainda estão presentes por todo o sertão sergipano. E o mais impressionante que muito mais nas povoações e nos lugarejos mais afastados que mesmo nos centros urbanos. De repente, dos escondidos sertanejos vão aparecendo os reisados, os pastoris, as autênticas quadrilhas juninas, os xaxados, os sambas quebrados no miudinho do pé.
Da povoação ribeirinha de Bonsucesso, às margens do Rio São Francisco, no município sertanejo de Poço Redondo, chega a Cavalhada Mirim (cavalos de pau com cabeças de cavalos feitas de garrafas pet), o Reisado, o São Gonçalo e o Pastoril. Da região do Quilombo Serra da Guia, no mesmo município, Dona Zefa da Guia (parteira e rezadeira por excelência) traz o seu Samba-de-coco. De outras povoações locais vão surgindo grupos folclóricos com suas danças, seus batuques, suas enfeitadas encenações.
Pela cidade já passaram a cavalgada e a apresentação da cavalhada. Cortejos azuis e encarnados, lanças com fitas, cavalos e cavaleiros em disputa. Mas não há vencedor senão a cultura local e a população que ávida e prazerosamente assiste e aplaude cada acerto na argola e cada lança colocada ao umbro daquele convidado a colocar uma nota de dinheiro como premiação. Avista-se em deslumbramento, mas nada de novo naquele chão. Ainda continuam famosos os antigos cavalheiros de imponência sem igual, fossem representando cristãos ou mouros, mais parecendo príncipes em cima de seus portentosos e enfeitados cavalos.
Igual encantamento quando os grupos de xaxado se apresentam nas feiras culturais ou noutras programações. O xaxado, um tipo de pisada dançante tipicamente nordestina, mais difundida como folguedo cangaceiro onde os bandoleiros marcavam na batida dos rifles o compasso de sua dança, torna-se mais atraente pelas vestes cangaceiras recobrindo seus integrantes. Lenços, embornais, cartucheiras, cantis, chapéus estrelas, ornamentos dourados, tudo muito colorido e brilhoso. Também os gritos de guerra, os cantos, toda uma teatralização que tornam ainda mais fascinantes as apresentações. Atualmente o mais famoso do sertão sergipano é o Xaxado na Pisada de Lampião, de Poço Redondo, que possui também uma versão mirim de igual qualidade.
Além dos gritos cangaceiros na marcação do xaxado, mesmo ao longe, inconfundíveis são os sons dos pífanos. Taboca furada nas laterais, canudo trabalhado com maestria, a flauta matuta ecoando os sons passados de gerações a gerações. O pífano em si é apenas um instrumento fazendo parte de um grupo maior de instrumentos, tendo sempre a inafastável companhia do surdo, do tarol e da zabumba. Tocadores do mato, homens da roça, de mãos calejadas, sempre com a mesma garbosidade dos grandes artistas. Na região sertaneja de Sergipe, famosos são os Pífanos da Família Vito, de longa raiz familiar e cujos integrantes vão se revezando com os avanços das idades.
Os Pífanos da Família Vito estão sempre presentes nas festas religiosas e nos raros leilões caipiras que ainda persistem no sertão sergipano. Não leilão de gado, de prendas novas e modernas, mas um festejo diferente, nos moldes tradicionais, onde os objetos colocados em lance vão desde o bolo de milho à garrafa de cachaça. Em tempos mais antigos, quando as casas eram iluminadas por candeeiros ou lamparinas, ao longe se avistava a fogueira crepitando ao som do pífano, da sanfona e a voz aguda do leiloeiro perguntando quem dá mais por uma goiabada, uma panelada de galinha caipira, uma abóbora ou melancia.
Observação: O presente texto foi originalmente publicado na Revista Cumbuca, Ano V, n. 16, Aracaju/Edise.


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Lá no meu sertão...


Rangel Alves da Costa, um dia no passado



Noturna saudade (Poesia)


Noturna saudade


Não sei se estou lá
ou estou aqui

mas veio a ventania
e eu corri

e veio a tempestade
e eu tremi

veio a tristeza
e eu não fingi

veio o soluço
e eu gemi

e veio a solidão
e eu morri

de saudade
saudade
saudade...


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - meteorologias e as surpresas do tempo


*Rangel Alves da Costa


De vez em quando a natureza bota a ciência meteorológica no bolso. A ciência se arvorou do tempo, do clima, das transformações da natureza, mas não de sua vontade própria de ação. Daí que tanto faz que a meteorologia diga que não vai chover se lá em cima as torneiras já estão sendo preparadas para serem abertas. A moça do tempo não tem nada a ver com isso. Mandam que ela diga que vai fazer sol ou que vai chover, e ela simplesmente informa. Mas no outro dia, o mesmo jornal noticia um temporal naquele mesmo lugar onde a previsão era de sol forte. E também o contrário. Desconcertantes são as desculpas encontradas pelos meteorologistas para os tantos e seguidos erros: É que uma frente fria de repente surgiu no oceano e... É que a massa de ar foi impulsionada pelos ventos de alta pressão e... Tudo para não dizer que a natureza é a única que nunca erra.


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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

A FASCINANTE ROTINA DE UM CARIRI CANGAÇO


*Rangel Alves da Costa


Quando se fala em evento do Cariri Cangaço, aqueles que nunca participaram de seus percursos nem de suas rotinas, certamente imaginarão um encontro de pesquisadores e apaixonados pelo cangaço ou outro tema nordestino, e estes envoltos em discussões, palestras e debates. Também assim, mas é muito mais. É infinitamente mais e maior que tudo aquilo que possa imaginar quem ainda não teve o prazer e a honra de ostentar sobre o peito o distintivo de participante.
Basta saber que não há aquele que participou uma vez e não tenha vontade de novamente reencontrar o belo e fascinante mundo do Cariri Cangaço. É curiosidade que se torna em prazer, é encanto que se torna em hábito, é costume que se torna em verdadeira necessidade de estar sempre presente e interagindo com as páginas abertas de um grande livro. Páginas sobre o cangaço, sobre o misticismo nordestino, sobre a musicalidade de raiz, sobre os conflitos sociais sertanejos, sobre vastos personagens que deram o mote na escrita da história.
Como bem afirmado na sua apresentação oficial: O Cariri Cangaço é um evento de cunho turístico-cultural e histórico-científico que reúne os mais destacados pesquisadores e historiadores das temáticas sobre o cangaço, coronelismo, misticismo, messianismo e correlatos ao sertão e ao Nordeste do Brasil, configurando-se como o maior e mais respeitado evento do gênero no país.
Mas nada acontece ao acaso. Nenhum local escolhido para os eventos de cada ano, já estará pronto para receber os participantes - ou caririenses - se não houver um longo e cuidadoso trabalho de campo, de conhecimento, de delimitação, de escolhas e confirmações. E inicialmente cabe ao menestrel Manoel Severo, responsável maior pelo sucesso de todo e qualquer evento, realizar todo um trabalho de pesquisa e de contatos, projetando daí as datas, os patrocínios, os locais de estadia, as visitações preliminares aos destinos históricos e culturais, a escolha dos eventos de cada dia, as palestras e os palestrantes, as homenagens, toda a programação, enfim.
E depois disso, ainda sob a batuta de Manoel Severo, sempre consultando e ouvindo o Conselho Consultivo do Cariri Cangaço, bem como as comissões e autoridades locais, toda a programação passa a ser divulgada e o chamamento aos interessados soando como um grito de “Gado no pasto, mas dessa vez a cabroeira vai estar em... em Juazeiro, em Crato, em Barbalha, em Missão Velha, em Aurora, em Barro, em São José de Princesa, em Porteiras, em Lavras da Mangabeira, em Sousa, em Nazarezinho, em Lastro, em Água Branca, em Piranhas, em Exu, em Floresta, dentre outros locais. E também, ainda este ano, em Serra Talhada, em Poço Redondo, em São José do Belmonte, em Fortaleza, e até Portugal”.
Ao chegar as datas, as viagens que são como verdadeiros passeios histórico-culturais pelas distâncias nordestinas. E na chegada os reencontros, os abraços, as boas surpresas, os convívios durante aqueles dias. Os hotéis e as pousadas, como casas destinadas exclusivamente aos participantes, transformam-se em verdadeiras varandas para os proseados, os saudosismos, as dúvidas que são tiradas na boca do forno. Mesas de café da manhã onde todos se juntam e entre um cuscuz e uma fruta, uma xícara de café e um copo de suco, vão se irmanando ainda mais, afeiçoando ao que Severo acertadamente chama “Família Cariri Cangaço”.
A partir de então e durante os dias seguintes, a família Cariri Cangaço passa a cumprir os rituais e os percursos da programação. As manhãs e as tardes geralmente são destinadas às visitações, através de deslocamentos até os locais históricos que fazem parte do contexto do tema escolhido. Locais de embates cangaceiros, casarões coronelistas, povoações cujas sagas continuam vivas na memória e na história, marcos de um passado sangrento ou glorioso, museus, memoriais, igrejas, capelas, fundações de um tempo de homens valentes e destemidos. Os deslocamentos em ônibus destinados exclusivamente aos participantes são uma festa à parte, onde cada percurso se torna prazeroso pelo convívio alegre e harmonioso entre todos.
São nos debates e nas palestras que surgem as surpresas, as novas teses, os novos desvendamentos, as revelações. A dita e a contradita, a aceitação e a contestação, vão aclarando os conhecimentos e fazendo surgir novos olhares sobre temas já tidos por muitos como de única feição. Assim, verdadeiros livros vão sendo escritos a cada Cariri Cangaço surgido, ali mesmo, no calor da hora e da força expositiva. Mas nada mais gracioso e singelo que as homenagens promovidas pela Família Cariri. Nos olhos e no pulsar de cada homenageado a profunda sensação de alegria e prazer. E surgem os merecidos aplausos, mas principalmente as lágrimas, as muitas lágrimas.
E após participar de alguns eventos caririenses, eu confesso agora que fui descobrindo os motivos de o meu pai Alcino Alves Costa sempre retornar com o ânimo refeito após cada viagem que fazia. Voltava feliz pelos amigos reencontrados, pela estadia entre os seus, pelos novos conhecimentos que trazia. Voltava feliz pelo convívio com sua Família Cariri Cangaço.


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Conselheiro Cariri Cangaço
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Lá no meu sertão...


Pequeno sertanejo preservando suas tradições



Ao desejo do vento (Poesia)


Ao desejo do vento


Não, não foi dessa vez
que o vento levou
veio um triste outono
mas o amor suportou

por que frágeis estamos
por que delicados vivemos
por que débeis ficamos
por que rúpteis acostumamos

tenho medo que o vento
na sua sanha voraz
leve o que nos sustenta
e já não existamos mais

por que depois do amor
de amar já se mostra incapaz
por que depois do querer
a folha seca ao tempo desfaz.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - em Poço Redondo, ter coragem é saber ter medo


*Rangel Alves da Costa


Em Poço Redondo, cidade interiorana no sertão sergipano, ou a pessoa tem medo ou terá sua coragem roubada a qualquer instante, principalmente depois do anoitecer. Quem tem coragem de estender uma esteira na calçada e adormecer até a madrugada chegar? Quem tem coragem de colocar cadeira na calçada para cochilar enquanto a brisa da noite passa? Quem tem coragem de sentar no beiral da porta ou na calçada com o seu celular à mão? Quem tem coragem de ir fachear rolinha na escuridão sertaneja? Quem tem coragem de brincar de pegar de boi na escuridão dos quintais e arredores? Depois que a noite cai e mesmo durante o dia, não faz medo passar pelo cemitério nem pela casa mal-assombrada, mas que ninguém se atreva a caminhar muito entre os vivos ou imaginar que estes não assustam. Poço Redondo se transformou num lugar onde a paz e o sossego já não existem mais nem dentro nem fora de casa. Tudo agora assusta, tudo é violência, tudo é desassossego. Antigamente, o medo era do cavaleiro da noite, do fogo-corredor, da “visage”, mas agora o temor é do vivo mesmo. O cavaleiro da noite passava trotando de riba a baixo, todo mundo ouvia e ninguém via. Mas agora basta ouvir o barulho de uma moto de repente chegando e o povo já pensa que vem coisa ruim. E vem mesmo.
           

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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

BRINCANDO DE AMAR


*Rangel Alves da Costa


Não há nada melhor que amar. O amor romântico, entre dois, é algo verdadeiramente insuperável. O amor é tudo, como acertadamente disse o poeta.
Mas brincar de amar também não é ruim assim. Ora, muita gente brinca. Muito mais do que imagina nossa vão filosofia amorosa. Agora mesmo alguém este brincando de amar.
Agora mesmo alguém está fazendo do outro um brinquedinho, jogando daqui pra lá, fazendo de conta que ama. E o pior é que muita gente se deixa ser jogada de lá pra cá, se deixa usar como peteca ou bola de assopro.
Agora mesmo alguém está achincalhando do outro que diz tanto amar. Jura amor, até se ajoelha se for necessário, mas outra coisa não faz senão zombar, usar, chacotear, torna o outro num objeto de diversão perante todos.
Isso mesmo, pois aquele que é usado e abusado, servindo sempre como brinquedo amoroso, acaba divertindo também toda a comunidade. Muitas vezes, até uma cidade inteira passa a se divertir com o brinquedo amoroso com que um trata o outro.
Neste jogo, aquele que brinca vai fazendo do outro um lúdico cuja serventia outra não é senão o desrespeito, a traição, a falta de honradez e pudor. Aquele que joga, apenas joga, faz do outro verdadeiro brinquedo. Aquele que é jogado e que verdadeiramente ama, acaba sendo zombado sem merecer.
Muito acontece assim. É um jogo de tanto faz para quem faz do outro brinquedo. Diz amar e faz do amor sua diversão. E se diverte traindo o amor confiado. Graceja pelo que faz e o outro que ama nem sempre sabe que está sendo usado, jogado, humilhado.
Mas o que seria, realmente, brincar de amar? Sua compreensão está no próprio contexto do que seja brincadeira. Sua definição partirá deste contexto.
Segundo os dicionários, brincadeira é o ato de brincar. Brincadeira é jogo, é diversão, é passatempo, é recreação. Brincadeira é agir ludicamente, a partir de situações que causem prazer pelo divertimento.
Brincar, pois, é divertir, é entreter, é distrair. Significa ainda dizer que não há seriedade na brincadeira, pois é a diversão que move sua prática. E com relação ao amor, como seria então?
Com relação ao amor, a brincadeira assume a mesma feição conceitual. Considerando que o amor depende da relação entre dois, então um destes toma a iniciativa de, unilateralmente, tornar o outro num meio de divertimento.
Assim, brincar de amar é tornar o amor uma mera diversão, um entretenimento, uma distração. Brincar de amar é fingir que ama e tornar tal fingimento em traição, em troca amorosa, em safadeza.
Brincar de amar é não levar a sério o que a um tem tanto importância, mas que ao outro não vale absolutamente nada. Quem brinca de amar sempre desdenha do outro, tem com este como insignificante e como um objeto qualquer de pouca utilidade às suas verdadeiras pretensões.
Quem brinca de amar e torna o outro em vil brinquedo, sempre chama para si o prazer da desonra, de ter seu nome falado e enlameado, mas ainda assim o faz pelo simples prazer da traição ou da sem-vergonhice.
Fazer o que, então? A verdade é que quem ama nunca descobre facilmente que está sendo usado, zombado, chacoteado. Todo mundo sabe, mas a pessoa não. Mas ao descobrir, então caberá tomar a decisão se deseja continuar sendo jogado ou se não permite para si tamanha vergonha.
Por fim, quem joga ou brinca de amor e até faz disso uma arte da sem-vergonhice, não permanecerá eternamente com o prazer de enganar. Um dia sairá perdedor ou perdedora do jogo e saberá o quanto é doloroso e humilhante servir de brinquedo.


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Lá no meu sertão...


Nas beiradas do Velho Chico




Colhendo flores (Poesia)


Colhendo flores


Por esta estrada que caminho
em busca de flores para o meu amor
sou ferido pelas pedras e espinhos
querendo que eu perca flor a flor

mas meu amor está me esperando
e tem afagos e carinhos e canções
nenhum labirinto me impede seguir
e levar as flores de todas as estações

vencida a dor lancinante da estrada
ao longe avisto outra flor na janela
e esqueço os buquês de todas as rosas
e corro com meu beijo ao encontro dela.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - na noite


*Rangel Alves da Costa


Aqui sozinho, sem um pé de pessoa ao redor, na solidão mais profunda que possa existir. Somente o som do teclado, apenas. Nem chuva caindo tem. A solidão mais solitária que possa existir. Um silêncio cortante, lancinante, ruim demais de se ouvir. Mas não tem nada não. E venha a noite e seu negrume, e que venha a noite e sua escuridão. Não sei se vai ter lua ame cima, estrelas brilhando, vento ou ventania. Também pouco importa saber. A noite vem e não há o que fazer. Talvez um bom livro, um copo de vinho, um noturno em piano ou uma sonata clássica. Mas nada disso me anima a fazer. Talvez a vidraça adiante ou a abertura do portão. Olhar o mundo lá fora, avistar a noite lá fora e depois retornar para a noite de cá, esta entre quatro paredes. Deitar no sofá e ficar pensando e pensando. Não. Basta o que já chega sempre precisar reabrir livros de relembranças e nostalgias. Uma verdade seja dita, a noite cor assim de tamanha tristeza por um motivo maior: eu aqui e ela lá. Distante, distante, distante...


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domingo, 14 de janeiro de 2018

UMA TARDE COM SEU JOÃO CAPOEIRA


*Rangel Alves da Costa


Em Poço Redondo, sertão sergipano. Na tarde deste sábado dia 13, ainda embaixo de sol brilhoso e calor de fornalha, atravessei a Praça da Matriz, segui adiante na direção da Avenida João Maria de Carvalho, e logo no outro lado já estava em território de Seu João Capoeira, morador de raiz desde que a Rua Francisco Xavier sequer tinha nome. Dizia-se apenas que pertinho do Riacho Jacaré.
Rua de paralelepípedo, árvores nos beirais das calçadas, gente sentada em cadeiras de balanço à espera da melhor ventilação do entardecer. Perguntei a um onde ficava a casa de Seu João Capoeira e este logo indicou: Ali naquela casa amarelada, de porta aberta, com árvore e a cadeira na calçada. Prontamente me dirigi ao local indicado, parei um instante à frente, fotografei, olhei porta adentro e não avistei ninguém. Já ia chamar pelo nome, quando percebi uma pessoa lentamente se encaminhando em direção à porta. Era ele.
“Seu João, boa tarde, como vai?”. Foi o cumprimento mais cordial que me veio à mente naquele instante, principalmente pelo fato de estar completamente absorvido pela imagem viva daquele homem tão importante na história de Poço Redondo.
Inicialmente, olhou-me como olharia para um estranho qualquer. Não me conhecia, eu ainda não o tinha informado minha origem de conterrâneo nem do meu tronco familiar. Aproximei-me um pouco mais e o ajudei na descida do degrau até a calçada, onde uma cadeira o esperava a todo instante. Estatura mediana, magro, vestindo camisa de manga longa esverdeada e calça entre o azul escuro e cinza, calçando havaianas, carregando na mão uma bengala, olhos profundos e atentos.
Naquele homem, naquela pele enrugada de tempo, naqueles olhos opacos de tanto sol e tanta lua, naqueles ouvidos já com dificuldades de ouvir, naquele passo lento e acompanhado do cajado da sabedoria, nada menos que 106 anos de vida sertaneja. Sim, mais de uma centena de anos no seu passo de mundo sertanejo. Seu nome de batismo: João Saturnino dos Santos, viúvo de Dona Alvaci Clementina dos Santos. Pai, avô, bisavô, tataravô de uma geração inteira.
Confessou-me que todos os seus irmãos já partiram e somente ele restava daquela raiz antiga. Seus irmãos, igualmente numerosos, também fazem parte dos anais da história poço-redondonse. Os de mais idade haverão de recordar de Seu Liberato (Libel), Minervino, Antonieta, Estela, José, Maria José (esposa de Mané França), Dona Céu. Os seus filhos são: Manoel, José, Elias, Maria, Genalva, Eva, Lúcia e Maria José. Por lá avistei a bisneta Maria Cecília, filha de sua neta Rejanne. Depois a pequena Cecília sentou no colo do bisavô para um singelo retrato.
Capoeira, por que esse apelido? Sua neta Daniela explicou-me. Assim como existe João Maralina, pois morador na Fazenda Maralina, também João Capoeira, pois muito tempo morador numa propriedade por nome de Capoeiras. Daí o nome João Capoeira. Mas foi Seu João que me confessou ter sido vaqueiro de Manoel do Brejinho, um dos potentados de Poço Redondo de antigamente, latifundiário e criador de rebanhos, e um dos responsáveis pelo progresso da então nascente povoação.
Seu João, na sua voz lenta, pausada e cheia de recordação, relatou-me ainda ter na memória as andanças de Lampião e seu bando pelo sertão. Amedrontava todo mundo, fazendo com que pessoas fugissem pelos matos ou preferissem refúgio na Serra Negra. Muitas famílias de Poço Redondo juntavam o que podiam e corriam para o outro lado da fronteira, para as terras do Coronel João Maria de Carvalho. E foi por isso, segundo Seu João, que certa feita viajou ao Rio de Janeiro. Não queria ir, mas a situação estava difícil no sertão cercado por cangaceiros e volantes.
As volantes eram muito desumanas, segundo suas palavras. O sertanejo se revoltava com tudo isso, e também por esse motivo se bandeava pro cangaço. Referindo-se a Zé de Julião, afirmou ser homem bom, corajoso, porém injustiçado. Era sertanejo de valor e que não devia sofrer o que sofreu. Quando perguntado se algum dia já havia pensado em entrar para o cangaço, afirmou que não, mas que não tinha muita saída não. Era muita violência no sertão, uma correria danada.
Dois fatos me despertaram maior atenção durante o proseado com Seu João. De vez em quando, tentando passar maior confiança e assim obter mais informações, eu repetia que era de Poço Redondo mesmo, filho de Alcino e Peta e neto de China e Dona Marieta, de Ermerindo e Emeliana. Então, numa das vezes, ao falar o nome Alcino, ele olhou-me fixamente, como que surpreendido, esboçou um sorriso e disse: “Filho de Alcino?”. Lembra dele, perguntei. “Muito, era muito meu amigo”. E então me olhou mais fixamente e por tempo demorado, para em seguida, com olhos brilhando, dizer: “Alcino”.
Em seguida perguntou-me: “Emeliana ainda é viva?”. Não, minha avó já faleceu, respondi. “Já morreu?”, ele insistiu na pergunta. E depois se mostrou mais entristecido e pensativo. Alcino já morreu e Emeliana também, disse por fim. E neste passo eu mesmo já estava entristecido demais ante aquelas recordações. Despedi-me prometendo voltar brevemente e reencontrá-lo ainda lúcido e com saúde.
Retornarei. Que Deus me permita reencontrá-lo na sua cadeira de sombreado, com sua memória e sua história.


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Lá no meu sertão...


Rangel e Seu João Capoeira, em Poço Redondo, sertão sergipano




Em sua direção (Poesia)


Em sua direção


Aqui estou
onde está você?

qual a distância
queira me dizer

o pássaro em mim
precisa te ver

e voando vou
sua janela descer

não fico onde estou
ou voar ou correr

já não estou aqui
onde está você?


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – bilhete de chego já


*Rangel Alves da Costa


Rosinha minha fulô, avise a Joaninha que vou levando aquele pano de chita pra fazer roupa bonita, levo diadema com laço de fita e um cashmere bouquet comprado só pra você. Não esqueci a lavanda, ainda que seu perfume me cause tanto ciúme. Nada tá fácil não, queria levar uma mala cheia de recordação, pulseira, presilha, alfazema e loção, sandália bonita, roupa de algodão. Comprei um disco de um cantor que você gosta, do que me pediu é minha resposta, levando o disco pra você cantar e que sabe assim mais se apaixonar, e me dar um beijo e querer chamegar. Levo um espelho de bolso e um terço de pescoço, uma brilhantina cheirosa e uma água de rosa, que é pra presentear se algum parente chegar. Mas não diga a ninguém não, quero surpreender meu sertão quando descer da marinete com mala e coração. Chego já Poço Redondo, chego já!


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sábado, 13 de janeiro de 2018

LIBERATO DE CARVALHO, CORONEL JOÃO MARIA E ZÉ RUFINO: QUASE UM POEMA DRUMMONDIANO PARA LAMPIÃO


*Rangel Alves da Costa


No seu famoso “Quadrilha”, diz o poeta Carlos Drummond de Andrade que “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história”. Mas o que isto tem a ver com a história de Lampião?
Calma. Chegaremos lá, mas anteciparemos um quase poema drummondiano para Lampião: O Tenente Liberato de Carvalho amava seu irmão Coronel João Maria de Carvalho que amava seu compadre Zé Rufino, que amava os dois e que também amava matar cangaceiros. Liberato perseguia o cangaço, João Maria protegia cangaceiro e Zé Rufino ao compadre respeitava. Liberato nunca prendeu Lampião, Zé Rufino nunca arrancou sua cabeça e João Maria viveu seu coronelato sendo amigo de todo mundo.
Um nó apertado demais para ser afrouxado, não é mesmo? Talvez uma história intrincada demais para ser entendida, não é mesmo? Mas explicaremos para que se entenda melhor o tabuleiro de xadrez sob o qual o cangaço se estendia, em meio a labirintos até hoje incompreensíveis a muitos e como frangalhos da história que até o presente não foram devidamente juntados. Acrescente-se, contudo, que o poder de sedução do famoso cangaceiro não só dava nó em pingo d’água como tornava a seu favor o impensável de acontecer.
E a você, torna-se claramente compreensível que os irmãos Liberato de Carvalho e João Maria de Carvalho, fraternos amigos enraizados na baiana Serra Negra (hoje Pedro Alexandre) tenham atuado de lado opostos perante o cangaço? E que Zé Rufino, com quartel na mesma cidade, fosse tão implacável na caçada aos cangaceiros e ao mesmo tempo devotado a seu compadre João Maria, abertamente protetor e acolhedor não só dos guerreiros do sol como de qualquer um renegado que chegasse à sua varanda?
Liberato Matos de Carvalho (1903-1996), na condição de Tenente-coronel, foi comandante de volante e participou do famoso Fogo da Maranduba (ocorrido em 9 de janeiro de 1932, na fazenda Maranduba, no então distrito sergipano de Poço Redondo), onde seus soldados - ao lado da força pernambucana sob as ordens do tenente Manoel Neto), foram fragorosamente derrotados pelos homens de Lampião. Chegou a ser nomeado comandante das forças unificadas nordestinas no combate ao banditismo.
Seu irmão João Maria de Carvalho (1890-1963), de patente militar e de latifúndio, caracterizou-se como líder local e além-fronteiras, exercendo seu poder de mando não só nos seus domínios baianos como no sertão sergipano, onde era dono de quase uma dezena de grandes propriedades. Tido por muitos como protetor de bandidos, comandante de jagunços e amigo de cangaceiros, a verdade é que exerceu sua primazia coronelista sendo obedecido e respeitado até o fim da vida.
Já o Tenente Zé Rufino (José Osório de Farias, 1906-1969), um ex-sanfoneiro que, segundo dizem, passou a integrar a volante temendo represália de Lampião por não ter aceitado ser cangaceiro e animar a cangaceirada com o seu fole, acabou se constituindo num dos mais implacáveis perseguidores e matadores de cangaceiros, tendo dado cabo de cerca de vinte. Jamais conseguiu, contudo, enfrentar Lampião no olho a olho. Ou talvez sua esperteza falasse mais alto, evitando o confronto direto. Seu quartel-general era situado na baiana Serra Negra, na mesma localidade de mando do Coronel João Maria, de quem era amigo e se fez compadre.
Há de se indagar, então: Havia algum compromisso entre João Maria, seu irmão Liberato e Zé Rufino. E mais: O compromisso firmado entre eles envolvia, não o bando cangaceiro em si, mas a figura de Lampião? Será que Lampião deveria ser preservado por ordem dada por João Maria ao irmão e ao compadre? Sabe-se que Liberato enfrentou Lampião no Fogo da Maranduba e foi derrotado, ainda que as volantes contassem com um número três vezes maior de homens do que cangaceiros. Será que o comando de Liberato não se empenhou suficientemente para a derrocada cangaceira?
No seu famoso “Guerreiros do Sol”, relata Frederico Pernambucano de Mello, às fls. 291, uma confissão de Sila (no seu livro Sila: uma cangaceira de Lampião) que, se verdadeira, justificaria o trânsito livre de Lampião perante os irmãos Carvalho e até mesmo por Zé Rufino. Diz Sila que Liberato e Lampião mantinham secretos laços de amizade. Acreditem: secretíssimos laços de amizade! Mais adiante diz o autor:
“De seu irmão, fazendeiro João Maria de Carvalho, chefe político de Serra Negra, Bahia, sempre se soube ser amigo e protetor de bandidos, especialmente de Lampião e seus cabras, com uma atividade de coiteiros bastante intensa, como consta deste livro (referindo-se ao livro de Sila). Quanto a Liberato, seus laços in pectore com o Rei do Cangaço são nada menos que estarrecedores”. Relata ainda o autor que Sila diz no seu livro que após dar a luz seu primeiro filho, Lampião pediu que ela entregasse a criança ao amigo Liberato para criá-la.
Não se deve acreditar muito nos testemunhos de Sila. Contudo, há um emaranhado ainda não encaixado bem: Por que o Coronel João Maria atuou livremente na defesa e proteção de cangaceiros, e logo tendo Liberato e Zé Rufino na sua sala?


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