SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 23 de abril de 2018

OS BENEFÍCIOS DO CARIRI CANGAÇO PARA POÇO REDONDO



*Rangel Alves da Costa


Estamos certos assim: de 14 a 17 de junho de 2018, o maior evento nordestino, sertanejo e poço-redondense de todos os tempos, pois vem aí o Cariri Cangaço Poço Redondo. E dois aspectos merecem logo explicação.
Por que não desejamos apenas uma edição, dizemos Cariri Cangaço Poço Redondo 2018 para, mais tarde, surgir o 2019, 2020 e assim por diante, definindo as recordações e as saudades perante o ano de realização. E por que entre 14 a 17 de junho e não outra data? Precisamente para que a sua culminância seja na data em que Alcino Alves Costa completaria 78 anos: 17 de junho. E nesta data - como nas demais - haverá uma comemoração digna de sua eterna presença entre nós.
O lema do evento, tendo sido escolhido “Celebrando o Chão Sagrado de Alcino”, também possui sua razão de ser. Ora, será a celebração, a homenagem maior, a comemoração de sua importância, a valorização e o reconhecimento deste sertanejo que sempre teve o sertão no seu coração, que tão bem soube levar ao mundo a saga e a luta do homem sertanejo, que cavou as raízes mais profundas para contar sua história, que cantou em versos o seu povo e o seu chão e elevou o nome de sua terra natal a um prestígio de mais alto patamar.
Considerando o sertão como chão sagrado de Alcino, então serão abertas as páginas de sua história, de sua cultura, de suas tradições, como se fosse o próprio Alcino quem estivesse levando os estudiosos, escritores, turistas, alunos, a população em geral e seus amigos do Cariri Cangaço, ao conhecimento de cada página desse grandioso livro:
Estrada Histórica Antônio Conselheiro (marcos de Canário, da Cruz dos Soldados, de Zé de Julião, de Antônio Canela, da Igreja do Conselheiro, etc.); Curralinho e sua histórica arquitetura e o seu rio de tantas histórias; Estrada da Maranduba (marco de Zé Joaquim) e Fazenda Maranduba (Fogo da Maranduba e Cruz dos Falecidos em Batalha), Santa Rosa e a casa do fundador Ermírio Torres Machado; Serra Negra (João Maria de Carvalho, Liberato de Carvalho. Zé Rufino, Rua Velha, etc.); Avenida Alcino Alves Costa, a Nova Praça Lampião, Praça de Eventos, Memorial Alcino Alves Costa, etc. E muito mais. Muita mais por que também nossa cavalhada, nossa cavalgada, carreatas de carros-de-bois, nossa vaqueirama, nossos grupos folclóricos, nosso xaxado adulto e mirim, a Orquestra de Pífanos da Família Vito, a Orquestra Sanfônica de Poço Redondo, os artistas da terra, os aboios e as toadas, as cantorias e os repentes. E também o desenvolvimento de atividades pelos alunos da rede municipal de ensino.
Será a partir desse livro aberto que o Cariri Cangaço possibilitará o início de um novo tempo de reconhecimento e valorização da história, da cultura e das tradições de Poço Redondo. E assim por que o evento em si se constituirá como num abrir de portas para a continuidade de ações. As obras realizadas pela gestão municipal para o evento, por exemplo, continuarão como obras entregues à população, como equipamentos que a partir de então servirão não só para o embelezamento da cidade e do município como para colocar Poço Redondo - e definitivamente - na rota do turismo histórico. E o turismo permitirá emprego e geração de renda para grande parcela da população.
A Estrada Histórica Antônio Conselheiro (Estrada de Curralinho) exemplifica bem esse descortinamento das potencialidades. Até o mês de junho continuará vista apenas como uma estrada que leva até a beira do rio. Mas depois não. As obras que serão feitas ao longo de todo o seu percurso - onde nada menos que cinco locais receberão marcos, placas e sinalizações - permitirão que a cada passo seja encontrada uma importante informação histórica. E tudo isso se traduz em conhecimento da população, em visitação, em turismo e geração de renda.
Outro exemplo diz respeito à Praça Lampião. Criada na administração Alcino Alves Costa e reformada na gestão Enoque Salvador de Melo, até hoje se constitui no único local da cidade que reverencia a história do cangaço no município. Contudo, uma construção tão modesta que nem de longe permite reconhecer a importância de Poço Redondo no contexto do fenômeno cangaço. Ainda assim, é local onde os viajantes param para fotografar e levar nos seus álbuns de recordações. Mas outra feição será dada à praça para o evento e para a posteridade. As obras ali previstas permitirão que, enfim, todos sintam prazer em visitar e se deixar fotografar.
E por todo lugar será assim. Onde o Cariri Cangaço passar ficará aberta a porta para o desenvolvimento turístico do município. Os frutos logo surgirão para benefício de todos. E mais ainda considerando que a administração municipal logo iniciará o resgate de todas as potencialidades, desde a Gruta de Angico a Serra da Guia, desde o Poço de Cima às ribeiras de Bonsucesso e mais ribeiras. Então, Avante Cariri Cangaço. Avante!


Escritor
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Lá no meu sertão...


Chão do sertão





Cangaceiros (Poesia)



Cangaceiros


Quem colocou a canga no outro
ainda chicoteou e esqueceu de tirar
depois ferrou com a ponta em brasa
e cuspiu no rosto querendo humilhar

mas o escravo um dia se levantou
com a força sertaneja que encontrou
retrucou o cuspe na cara de seu algoz
e para enfrentar a injustiça se preparou

se os donos do mundo têm o poder
só resta ao sertanejo mostrar a valentia
e valente enfrentar o mando injusto
e passar a viver o mundo da rebeldia

rebeldia logo tida como fora da lei
pois com punhais e seus mosquetões
tendo as caatingas como sua estrada
e zunindo balas e retinindo em clarões

mesmo sem a canga são os cangaceiros
na defesa e no ataque perante volantes
um sertão valente num sertão sangrento
mas já sem a submissão que se via antes

debaixo do sol e da lua a vida sofrida
mas na alma a certeza da justiça da luta
a bala na bala e o sangue no sangue
vitória impossível que jamais se desfruta

há um silêncio medonho na noite
parece vaga-lume mas não é vaga-lume
as mãos se levantam em busca das armas
e tombam em rios de sangue seu perfume.

Rangel Alves da Costa



Palavra Solta - por onde os vermes rastejam



*Rangel Alves da Costa


Acaso perguntem por onde os vermes rastejam, não haveria melhor resposta do que dizer que rastejam nos ares. Sim, rastejam pelos ares e não pelo chão, pelos assoalhos ou pelas imundícies rasteiras. E rastejam pelos ares por que estão à presença do olhar, são sentidos nas alturas, estão com aparências visíveis. E a cada verme avistado uma vontade sem fim de dizimá-lo para sempre. Acaso estivesse ao chão seria mais fácil, bastando pisar, esmagar, retorcer de tal modo que nada restaria da massa putrefata e asquerosa. O problema é que os vermes não estão ao alcance das solas dos sapatos. E como dar fim a um governante, a um parlamentar, a uma autoridade, aos vermes que corroem nossas vidas? E como dizimar de vez todo mal humano nascido de humanos tão desumanos? O pior é que eles continuam rastejando livremente, todos peçonhentos, nojentos, nocivos, mortíferos até. Mas difícil acertar esses vermes. Matá-los não seria ilicitude de jeito nenhum. Seria apenas legítima defesa. Dizimar apenas aqueles que nos devoram a cada dia.


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domingo, 22 de abril de 2018

PANELA VAZIA, DIA APÓS DIA...



*Rangel Alves da Costa


Panela vazia, dia após dia, ainda há um mundo assim...
Governantes gostam de enriquecer a pobreza forçadamente. Dizem que tiraram milhões da miséria e que não há mais panela vazia, barriga roncando faminta, aquela tristeza danada quando chega a hora do de comer e nada tem. E o mundo revira mesmo quando há menino, quando o filhote apenas espera qualquer alimento. O nada ter dói demais. Num pai e numa mãe, o choro do filho faminto é dor na carne mesmo, é punhalada no peito, é brasa quente nas vistas, por todo lugar.
Muitos ainda imaginam que as esmolas governamentais são suficientes para afastar a miséria da pobreza ou a pobreza da miséria, tudo no mesmo. Mas não. Não adianta colocar esmola numa mão e tirar na outra. Ou será que a esmola é suficiente para comprar remédio, para comprar o botijão de gás, para calçar e vestir, para a feira, para a vida com dignidade? Logicamente que não. Ajuda sim, pois todo pão ao faminto se torna em dádiva sagrada, mas a pobreza continua na mesma feiura de antigamente e de sempre.
Acreditem, mas a panela continua vazia, o prato continua guardado, o menininho cada vez mais magro, por todo lugar. Por todo lugar ainda há um pai em tempo de se acabar por não saber o que fazer para alimentar os seus. E todo dia assim. Por todo lugar há uma mãe escondendo lágrimas dentro dos próprios olhos, por não suportar mais olhar para o fogão sem nada, para a dispensa sem nada, para tudo sem nada. E bem ao lado, ou no cantinho na fraqueza do mundo, aquele pequenino que só quer um pedacinho de qualquer coisa. Meu Deus: como dizer a um filho que ele não vai comer?
Já imaginaram que situação. O menino chorando com fome e os pais sem ter, de forma alguma, o que fazer. Vai dizer à criança que não tem comida pra ela, vai dizer ao pequenino que ele tem de suportar a fome até a chegada de alimento, vai dizer a menininha que ela tome um pouco d’água que a fome vai passar? Que situação, meu Deus. Que situação mais terrivelmente lastimável, meu Deus. Mas fato é que isso acontece ali. Sim, acontece ali, bem ali mesmo, mais perto de você e de sua casa do que você imagina. Querem saber? Querem ter a certeza do que afirmo agora? Então vão, vão até ali, peça licença para entrar num barraco, num casebre, e perguntem se houve janta. Janta? Que nome mais estranho em muito lugar.
Que não se enganem, a pobreza pobre, a pobreza faminta, a pobreza feia e desdentada, a pobre miserável e repugnante, a pobreza ameaçadora e perigosa, a pobreza acintosa e humilhante, a pobreza vesga e troncha, a pobreza ossuda e descalça, a pobreza terrível, existe e bem ali. A pobreza não é feia, a pobreza não é repugnante, mas a sua condição é. Nada mais feio que o ser humano ser humilhado, se judiado, ser aviltado, ser submetido por sua condição econômica. Nada mais repugnante que olhar para uma pessoa carente e nela avistar não um ser humano que necessita de apoio, mas um eleitor ou um escravo que deve ser mantido amarrado na esmola política. Dói, minha gente, dói demais.
Acreditem no que vou dizer e citarei apenas um exemplo dos muitos e tantos que eu poderia citar em Poço Redondo. Olhem para o relógio ou avistem a escuridão. Já é noite. Para os que tiveram alguma coisa para colocar sobre a mesa, o sino do alimento já tocou. Mas bem ali, num mundo para muitos desconhecido e muito mais incompreendido chamado Bairro São José, o sino já tocou e continua tocando sem que nenhum tiquinho de nada pudesse chegar à mesa. Acreditem. Muitas famílias não têm sequer um pedaço de pão. Mas quase todas as famílias com filhos de todos os tamanhos. Então, o que aconteceu por lá quando o sino tocou?
Choros na alma, lágrimas por dentro, soluços velados, rios de dor escorrendo na face e nas entranhas de cada um. No Bairro São José há um povo que sofre, há um povo que necessita de pedaço de pão, há um povo que chora. Sabem quantos pais e quantas mães continuam, agora, chorando no Bairro São José? Batam à porta e vejam as lágrimas. Não estão nas faces, pois correndo por dentro, mas nas panelas vazias. E feito um mar de dor nos olhos dos pequeninos.


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Lá no meu sertão...


No sertão... mundo meu.



Coração de outono (Poesia)



Coração de outono


Cuidado por amar assim
um coração sem dono
fazendo da vida um festim
pois logo chega o outono

deixar ao vento o coração
ao sopro daquele que chegar
é fazer do amor uma ilusão
e com o amor brincar

um dia sem ao menos esperar
o vento do outono vai chegar
e com fúria vai soprar
e você vai levar.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – há um mar no telhado



*Rangel Alves da Costa


Há um mar no telhado. Há sempre um mar no telhado. Daí que há também um porto, um cais, gaivotas, águas, ondas, areias, azuis e distâncias. E triste de quem não tiver esse mar, de quem não fizer essa viagem noturna. Um mar no telhado que é imenso, que é enorme, que é infinito. E quanta viagem é feita singrando suas distâncias. Contudo, nem todo mundo tem um mar assim. Somente o tem aquele que ao deitar avista acima um telhado. Sim, a cumeeira e telhas. Não sei se é bonito o mar do forro da casa, todo esbranquiçado e sem vida. Bonito mesmo é o mar avistado lá em cima no telhado. Mar avistável e penetrável por aquele que, de olhos abertos, olha para o alto e começa a pensar, a imaginar, a refletir, a meditar. Então o telhado se transforma em cais, em porto, em água, em barco, em navio, em cais. E a viagem logo começa a ser feita, eis que o pensamento vai viajando, vai singrando, vai sumindo nos azuis e nas correntezas. De repente a pessoa nem imagina mais estar mirando o telhado. As telhas sumiram, a cumeeira sumiu. Ali somente um mar, o seu mar, a sua viagem. Até que adormeça e aporte em algum lugar.


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sábado, 21 de abril de 2018

A NOVA ESTRADA DE CURRALINHO (ESTRADA HISTÓRICA ANTÔNIO CONSELHEIRO)



*Rangel Alves da Costa


A chegada do Cariri Cangaço a Poço Redondo, bem como a disposição da Prefeitura Municipal, através do prefeito Júnior Chagas, em construir as estruturas essenciais e realizar as obras necessárias conforme as exigências da grandiosidade do evento, certamente que permitirão uma verdadeira transformação na realidade local, principalmente nos seus aspectos históricos, turísticos e culturais.
A partir do mês de junho Poço Redondo será outro, muito diferente, mais bonito, mais renovado, com alegria, esperança e florescimento da autoestima em sua população. Nos dias do evento então (14 a 17, de quinta à noite a domingo pela manhã) o povo sertanejo e os visitantes terão diante de si tudo aquilo (ou quase tudo, pois será um trabalho de continuidade) que a municipalidade merece na preservação de suas riquezas históricas e culturais, acentuando ainda mais a importância e a valorização deste chão tão sagrado de Alcino.
A celebração do chão sagrado de Alcino permitirá que o sertanejo, bem como os visitantes, sinta que Poço Redondo, enfim, abre os seus braços e o coração para mostrar toda a sua beleza. O que se mantinha escondido já não estará mais, o que se conhecia apenas por ouvir dizer já terá se tornado revelação. Quantos de Poço Redondo conhecem sua história, sua cultura, suas potencialidades? Quantos visitantes sabem que Poço Redondo possui dentro de si um patrimônio tão grandioso? Todos conhecerão.
Todos conhecerão e a partir de junho, com a realização do Cariri Cangaço, o município se tornará um destino turístico dos mais convidativos, gerando emprego e renda para a população. E mais: as obras realizadas pela administração municipal na cidade, arredores e povoações, permanecerão como acervo de toda a população. Significa dizer que as obras realizadas para o evento se tornarão patrimônio da municipalidade.
Dentre tais obras, assume primordial importância as intervenções que serão feitas ao longo de toda a Estrada de Curralinho e mesmo na povoação ribeirinha. Já não será apenas Estrada de Curralinho, e sim Estrada Histórica Antônio Conselheiro. Já não será um caminho nu e que apenas leva de um canto a outro. Nos catorze quilômetros que separam a cidade da beira do rio, toda a história ali presente passará a ser mostrada à população local e visitantes como um belo e convidativo cartão postal.
A mudança no nome será mais que justa. Foi o missionário Antônio Conselheiro, junto com seus seguidores, que por volta de 1874 abriu aquela primeira vereda em direção às margens do Velho Chico. E chegando ao alto da nascente povoação, logo cuidou de restaurar uma pequena capelinha existente, dando o nome de Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Então, o velho e profético missionário merece ser agora reconhecido pelos seus passos sertanejos de outrora, abrindo na mata o mesmo percurso até hoje utilizado.
Mas a estrada é histórica não apenas pela caminhada de Antônio Conselheiro. No seu percurso de catorze quilômetros, tudo – e absolutamente tudo – é história. E para mostrar apenas alguns aspectos desta riqueza, ao longo da estrada serão construídos nada menos que seis marcos, com bases e placas. A demarcação já foi feita, todas as providências já foram tomadas, e na próxima semana as obras já serão iniciadas.
Além do marco inaugural no início da estrada, bases e placas serão colocadas no Cururipe (local da morte do cangaceiro Canário), na Cruz dos Soldados (local da emboscada e morte dos soldados Tonho Vicente e Sisi pelos cangaceiros comandados por Corisco), nas Pedras da Bastiana (local onde, em 1961, o corpo sem vida de Zé de Julião foi encontrado), nos arredores da Fazenda Camarões (local onde o vaqueiro Antônio Canela foi morto pelo subgrupo do cangaceiro Mané Moreno), e no alto da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, também conhecida como Igreja de Antônio Conselheiro.
Além de tais construções, toda a estrada será devidamente sinalizada, com informações do percurso, dados históricos e outros elementos para a compreensão do contexto local. João de Virgílio, o famoso ribeirinho que todos os dias fazia, por duas vezes, a pé e descalço, o percurso entre a beira do rio e a cidade, carregando até sacos nas costas, e que faleceu fazendo a sua viagem de todo dia, também será recordado.
Como dito, tais obras não serão apenas para o evento Cariri Cangaço. Servirão, sim, para engradecer o evento e mostrar as potencialidades históricas de Poço Redondo, mas permanecerão como fundamental acervo de toda a municipalidade. E todas estas obras estão sendo realizadas pela administração municipal a partir do planejamento elaborado pela Comissão Organizadora, objetivando, pois, o despertar desse novo tempo da história local.


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Lá no meu sertão...


Pequeno Levy, menininho lindo



No tempo de vô e de vó (Poesia)



No tempo de vô e de vó


Bença vó
Deus abençoe fio meu

Bença vô
Deus abençoe meu fio

tem bolo vó?
só quando tomar banho

tem uma moeda vô?
só quando fizer a lição

senta aqui fio meu
quero lhe fazer cafuné

venha aqui meu fio
preciso ensinar uma coisa

era uma vez
um menino assim feliz

tempo de vô e de vó
que quase não existe mais.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – nesta noite chuvosa



*Rangel Alves da Costa


Estou no sertão e em noite chuvosa. A maior parte do dia foi nublada, mas depois do entardecer o sereno caído começou a se derramar com mais força. Não é chuva forte, apenas naquela constância boa de molhar a terra. Contudo, em se tratando de noite, a chuva, mesmo fininha, ganha simbologias e feições muito mais acentuadas. Primeiro por que chuva no sertão sempre causa uma sensação diferente, de um espanto bom. Segundo por que as pessoas se recolheram mais cedo e deixaram as ruas entregues às suas vagas e aos seus silêncios. Uma cidade quase deserta, molhada, quase que já completamente adormecida. Terceiro por que a chuva noturna provoca grandes transformações nas pessoas. Os sentimentos são revolvidos, as vozes interiores passam a ecoar, as recordações e as nostalgias chegam em profusão, tudo parece mais entristecido. E todos nos seus quartos, nas suas salas, nos seus escondidos. E a chuva caindo, caindo, caindo...


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sexta-feira, 20 de abril de 2018

DESALENTO



*Rangel Alves da Costa


Uma estrada. Um caminho. Um voo. Uma fuga. Um sonho. Um horizonte. Um destino. Uma sina. Um desespero. Um medo. Um desejo. Uma saída. Mas quando abrir a porta e enfrentar o desconhecido além?
Acordar e de repente se sentir em fúria. E, inconformado com o que sequer sabe o que seja, confrontar a si mesmo e a tudo. E então bradar, chutar, se extremar na violência. “Chega, chega, chega. Vá tudo pra puta que pariu. Nada presta, nada me serve, nada disso vale porra nenhuma. Já estou cheio dessa mesmice de merda, dessa droga de vida”. E vai batendo portas, esmurrando paredes, chutando tudo o que encontrar pela frente.
Vai partir. Não sabe para onde, mas tem de partir. E sem demora. É preciso aproveitar a cólera para não se arrepender. A cegueira da raiva acaba guiando ao desatino, mas qualquer caminho será melhor que ficar. E no silêncio da fúria a mente esbraveja: “Chegou a hora. Demorei demais suportando o insuportável. Aqui não nasci e aqui não hei de findar. E se existe uma estrada, então é por ela que devo seguir”.
A mente se demonstra menos furiosa que o ser em si, que a impulsividade em si. Mas nem sempre o pensamento doma a impensável atitude, pois é na irracionalidade que as estradas de labirintos e espinhos logo chamam à caminhada. E não há ponderação a ser feita quando a furiosa impulsividade diz que vá, que siga, que nem pense duas vezes em seguir adiante.
Deixando-se levar pela cegueira, pelo ódio e pela voraz decisão, sequer imagina as consequências mais prementes de qualquer abrir a porta. Tanto faz que esteja um tempo de vendavais e tempestades, um tempo de abismos e medos, um tempo de sombras e escuridões. Assim porque a cegueira de revolta impensada acaba criando uma ilusão proveitosa e convidativa. As ilusões das flores na estrada, dos frutos pelos pomares, das fontes de água doce.
Então as armadilhas se lançam ao cuidado de não fazer refrear os desacertos da vida. Lançam mais lenha na fogueira ainda crepitante e ardilosamente sopram o fogo voraz da incoerência. E ainda têm o cuidado de gritar aos ouvidos: “Você é covarde, é medroso, é a fraqueza em pessoa, é? Mostre que é dono de si mesmo, que faz o que bem desejar. Não estava decidido a abandonar tudo e sair por aí, então porque não abre logo a porta e vai apenas seguindo? Garanto-lhe uma alegria caminhada e um grandioso destino, sem arrependimento nem vontade de jamais retornar. Então abra logo essa porta e vá”.
No momento seguinte, ele já está calçando o chinelo e procurando a chave da porta. Vira e revira tudo e nada de encontrar. Ela não está em outro lugar senão na porta, no local de sempre, mas eis que forças ocultas, em constante luta com as armadilhas, também agem para permitir que o ser se sinta encorajado a repensar suas decisões e a agir de modo tão doloroso à própria vida. Mas a fragilidade dele era tamanha que as armadilhas logo trouxeram a chave quase diante dos olhos.
Abriu a porta e nem olhou para trás. Abriu rapidamente a porta e sequer se permitiu um olhar de despedida às velhas paredes, aos móveis antigos, aos livros velhos, às relíquias, aos retratos, à vida ali existente. A chuva caía em temporal, mas se imaginou num instante de sol e de estrada aberta. E as armadilhas diziam vá, vá, vá, pois um dia bom para seguir ao longe. E ele, sem ao menos fechar a porta, deu o primeiro, o segundo, o terceiro passo. Agora era só seguir em frente.
Mistério dos mistérios, segredos das forças que nunca abandonam os desalentados. De repente sentiu o peso da chuva, sentiu-se molhado, encharcado. Olhou para cima e só encontrou água caindo. Abriu os braços e se deixou inundar. Depois se debruçou sobre o chão empoçado e chorou. E assim permaneceu durante muito tempo, até a chuva cessar. Ao levantar os olhos e olhar para estrada adiante, apenas disse: que estrada mais difícil de ser seguida.
E retornou para dentro de casa. Preparou um café quente e retornou à soleira da porta, lançando o olhar à paisagem molhada e silenciosamente dizendo: logo tudo estará renascido.


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Lá no meu sertão...


Verde e vermelho





Algo a dizer (Poesia)



Algo a dizer


Nada mais resta a fazer
mas resta algo a dizer

nada acabou ainda
o amor nunca se finda

tudo muda na estação
e sempre volta um verão

as ondas vão e vêm
nossos desejos também

tenhamos a mão estendida
sem aceno de despedida

a noite enfim adormece
e um novo dia acontece

então sinta saudade de mim
pois sinto amor sem fim.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - sertão, meu sertão...



*Rangel Alves da Costa


Cadê meu chapéu de couro, meu alforje e meu gibão? leve essa caneta dourada e esse papel feio e de tanta letra e me traga meu aió de cipó trançado e o meu embornal e pergunte a Zefinha se vai botar baião-de-dois no fogão. Cadê minha lua tão sertaneja e meu sol tão chamejante? Leve esse sapato brilhoso e esse terno vaidoso e egoísta e me traga uma cuia de araçá e um punhado de quixaba e pergunte a Joaninha se amanhã vai quarar rouba na cacimba. Cadê meu tempo, minha vida, meu passo naquela estrada? Olho a ventania no varal e me pergunto se a vida é assim também. As craibeiras tardam tanto a chegar que choro a finura da catingueira. Tenho tanto medo que tudo seja assim que peço meu rosário de contas. E Bastião me vem dizendo que não há mais capim nem palma, silencio porque já ouvi de Totonho que já não há mais nada lá fora. Enquanto isso Delourdes canta uma velha canção para não chorar, mas não há quem não chore se o gado não berra e o galo não canta mais. Sofro e choro num sertão assim castigado de braseiro sobre a terra, mas ainda assim muito mais contente que viver fingindo alegria distante. Por isso deixo pra trás meu anel de doutor e toda essa minha esnobês e vou caminhar pela terra sertão de chinelo de dedo como meu pai fazia.


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quinta-feira, 19 de abril de 2018

QUANDO A CASA ERA IMENSA



*Rangel Alves da Costa


Era uma casa simples, normal, com poucas dependências, de tijolo e barro, muro e quintal, numa rua um tanto esquecida da cidade. Três quartos, uma varanda, uma sala de estar, cozinha, um pequeno salão ao fundo, um pomar. Uma porta e duas janelas à frente. Duas janelas laterais e uma porta ao fundo. No quintal comprido, desde plantas medicinais a goiabeiras e mamoeiros.
Como visto, até uma casa pequena. E menor ainda pelo número de familiares que nela habitava, como num apertado para tanta gente. Pai e mãe, dois filhos, dois netos. E mais uma cria que desde muito convivia com a família. Seis pessoas entre as quatro paredes, quartos e demais dependências. Também um gato, um cachorro e um velho papagaio falador. Uma casa pequena para tanta gente, mas imensa como o maior dos corações.
Família unida, com cada um sempre próximo ao outro, com cada um sempre sendo a palavra e o conforto do próximo, tudo afeiçoado a uma boa amizade além da familiar. A mãe, ou matriarca, sempre gostava de ter os seus netos em alvoroço, correndo de canto a outro, brincando e reinando. Sempre dizia que aquelas crianças eram a alegria da família. O patriarca, fingindo uma sisudez que não possuía, sorria por dentro toda vez que os meninos pulavam em suas pernas.
Um dia, de emprego novo, a filha decidiu alugar uma casa e levar os seus filhos. Zefinha e Joãozinho seguiram a mãe olhando pra trás e chorando. Não queriam sair dali, não queriam deixar a casa de seus avôs. Estes, esforçando-se o máximo para não demonstrar tristeza, apenas acenaram quando viraram a esquina. Em seguida, contudo, cada um procurou o seu canto e chorou toda a lágrima do mundo. Aquele silêncio começava a dor, a amargar, a ferir por dentro.
Os dias passavam e era como se a única alegria fosse a boa recordação. Os gritos, os barulhos e as palavras dos netos, eram ouvidos como se ali eles ainda estivessem. Vez por outra a avô se via falando sozinha, chamando Zefinha para oferecer bolo e pedindo a Joãozinho para colocar comida para os bichos de cria. Depois, quando sentia as palavras vãs, então chorava de soluçar. A saudade, a saudade.
O filho, tio das crianças, sempre dizia que não adiantava ficar assim. Repetia que os meninos não estavam distantes e que de vez em quando estava ali. Mas ele mesmo sentia muita saudade, e por isso mesmo sem o contentamento dos dias passados. Contudo, mais entristecido ainda quando se viu na iminência de dar uma notícia aos pais. Teria que viajar, teria que tentar melhor vida noutro lugar, pois ali já não oferecia emprego a ninguém.
Partiu no trem sem ter coragem de dar um último aceno. Seus olhos já estavam molhados demais para enfrentar os seus. E mais ainda por que sabia a dor derramada nos corações de toda a família. Também sabia que seus pais, já envelhecidos e agora tão solitários, haviam perdido toda a razão de viver. Por mais que se esforçassem, jamais reencontrariam a felicidade naquele mundo agora tão vazio.
O silêncio tomava conta de tudo. A mudez dos pais era crescente. O entristecimento também. Ela sempre recorria ao quintal quando já não suportava a saudade dos seus. E lá, entre roseiras e hortaliças, chorava sua lágrima mais doída. Ele se lançava adiante da casa e ia deitar sua tristeza debaixo de algum sombreado. Parecia ouvir a família, parecia estar sendo chamado por algum neto: Vovô, a comida tá na mesa!
A casa era imensa e tão pequenina. Mas agora estava imensa de vazio e maior ainda na saudade que expandia por todo lugar. Apenas dois seres onde havia seis. Um pai e uma mãe de filhos já não enlaçados ao seio familiar. E netos que haviam levado na partida toda a alegria de uma casa. Até que o silêncio fechasse de vez a porta daquela existência.


Escritor
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Lá no meu sertão...


A fé pela estrada





Se preciso for... (Poesia)



Se preciso for...


Bebo do resto do tanque
se preciso for
divido a caneca d’água
se preciso for
dou na boca do animal
se preciso for
e cavo o fundo do poço
se preciso for
deixo o suor derramar
se preciso for
para esperança molhar
se preciso for
deito lágrima numa cuia
se preciso for
não deixo a sede matar
se preciso for
e se a precisão chegar

e se preciso for
emborco a cabeça do santo
vou viver em procissão
rezo mil terços num dia
peço ao padre um sermão
aos céus levanto as mãos
e imploro chuva no sertão

se preciso for...

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - Rangel, apenas...



*Rangel Alves da Costa


Eu tenho uma vida mais simples e humilde do que se possa imaginar. Sou apenas Rangel em tudo o que faço. Pertinho das seis da noite e já estava indo em direção ao pequeno e antigo oratório que tenho como verdadeiro céu. Acendo uma vela, avisto mais alentadamente a face de Deus, converso com os santos, silencio em gritos minha oração, e depois corro aos outros afazeres. Hoje, por exemplo, molhei a massa de milho, deixei em repouso por alguns minutos, depois coloquei no fogão. Ainda não era hora do queijo com ovos. Enquanto o cuscuz aprontava, logo ali pertinho eu já lavava roupas. Calças, camisas, tudo sou eu mesmo que lavo. Também passo ferro. E prego botões e arrumo meu guarda-roupa. Certa vez li que as roupas carinhosamente guardadas chegam ao corpo como um afetuoso abraço. Acredito que sim. Quando bem guardadas elas parecem sonhadoramente adormecidas, satisfeitas, felizes. Mas não somente isso, pois cuido do meu quarto e do meu escritório com todo carinho. Não preciso forrar cama porque durmo em rede. E não preciso cuidadosamente levantar na madrugada para o início do dia porque durmo sozinho. Tomo um primeiro banho, bebo um café forte e sem açúcar e depois começo a dedilhar qualquer coisa. Um poema, um artigo, uma petição, um nada. Tudo no silêncio da hora, na canção distante que me chega à memória, sem uma voz que me chame e diga “amor”. O que mais dói é isso: sem a voz que me chame dizendo amor.


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quarta-feira, 18 de abril de 2018

O SERTANEJO, SEGUNDO O LIVRO DE JÓ



*Rangel Alves da Costa


Um livro bíblico de Jó é um verdadeiro cântico do sofrimento, mas também de fé. É a demonstração da fé em meio às contínuas angústias e aflições. Jó é testado na tentativa de se afastar de seu Deus, mas ainda assim mostra-se sempre fiel. Padece, mas transforma o padecimento em superação.
Além de perder filhos, bens, riquezas e uma vida cheia de benesses, de repente Jó se vê tomado pelas próprias dores da alma, pelas doenças, pelos males do mundo. Contudo, resiste, persiste na fé, sendo sempre levado pela esperança de que os justos alcançam a salvação.
O Livro de Jó se caracteriza, pois, por ser a prova mais contundente de devoção a Deus. Os desatinos sofridos, as dores sofridas, os tormentos vividos, nada disso foi maior que a sua crença. Quanto mais padecia mais acreditava, quando mais se afligia mais sentia que seria recompensado pela dádiva sagrada.
Com as devidas compensações, o Livro de Jó muito se aproxima do livro da vida do homem sertanejo. Não que este um dia tivesse sido rico e depois de tudo perdido tivesse sido tentado na sua fé, mas pelo constante sofrimento que carrega consigo e ainda assim jamais abandona sua convicção religiosa.
Diz o Livro de Jó: “Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; e era este homem íntegro, reto e temente a Deus e desviava-se do mal”. Diz o Livro do Homem, do homem sertanejo: Havia um homem na terra sertão e este era íntegro, trabalhador, cuja devoção religiosa o tornava um servo de Deus sobre tudo.
Diz o Livro de Jó: “Que veio um mensageiro a Jó, e lhe disse: Os bois lavravam, e as jumentas pastavam junto a eles; E deram sobre eles os sabeus, e os tomaram, e aos servos feriram ao fio da espada; e só eu escapei para trazer-te a nova”. Diz o Livro do Sertanejo: Que veio a estiagem e a tudo dizimou, o rebanho secou e a planta morreu, no fundo do tanque só restou o barro endurecido e petrificado.
Diz o Livro de Jó: “Então Jó se levantou, e rasgou o seu manto, e rapou a sua cabeça, e se lançou em terra, e adorou. E disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o Senhor o deu, e o Senhor o tomou: bendito seja o nome do Senhor”. Diz o Livro do Sertanejo: O que é meu me foi dado por Deus, e se é do seu desejo que tudo se vá, então que seja feita a sua vontade.
Diz o Livro de Jó: “Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma”. Diz o Livro do Sertanejo: Que seja feita a vontade de Deus. Não sou eu quem tem o poder de mandar a chuva cair, de fazer com que a planta renasça, de trazer de volta a força nos animais. Tudo na vontade de Deus e sua justiça será feita segundo o seu tempo.
Por que o sertanejo é assim, é assim como um Jó que sofre, que lamenta, que se aflige por dentro, que sente na pele e na alma todo o tormento do mundo, mas jamais renega sua fé. O sertanejo possui tamanha crença nas forças sagradas que sempre acredita no amanhã como um dia de renascimento.
Por que o sertanejo é assim, é assim como um Jó que depois de tudo perdido continua acreditando que tudo será reconquistado. O gado que berra faminto amanhã terá pastagem farta, o tanque seco amanhã já estará transbordando, a fome do homem e do animal é apenas um instante de privação, pois logo haverá fartura.
Por que o sertanejo é assim, é assim como um Jó que nunca esmorece ante as forças do mal e nem nega sua fé e o seu Deus perante as falsas promessas. Na casa sertaneja nunca deixará de existir a imagem santa, a vela acesa, o oratório, o terço, o rosário, a Bíblia. No sertanejo nunca silencia a prece, nunca se mostra inútil o sino da capelinha que brada na hora santa.
Jó foi salvo pelo seu destemor e pela sua fé. O sertanejo é sempre salvo por sua abnegação de fé e por sua contínua esperança nos dias melhores que virão em nome do Senhor.


Escritor
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Lá no meu sertão...


Rangel Alves da Costa



Aquela moça (Poesia)



Aquela moça


Carregava pote na cabeça
e era tão bela e faceira
comia macasado e bolo
gostava de tudo da feira

de chinelo barato nos pés
vestindo roupa de chita
ficava até envergonhada
mas não havia mais bonita

varria calçada e cantarolava
torrava café e acendia fogão
estremecia com fotonovela
sentindo arder o seu coração

o tempo passou e olhei atrás
aquela moça não avistei mais
e já não consigo ver uma igual
o tempo de hoje só faz tanto mal.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - quanto mais o petismo distorce mais a realidade distorcida prevalece



*Rangel Alves da Costa


É fato: quanto mais o petismo distorce mais a realidade distorcida prevalece. E com isso há que se dizer que não adianta adjetivar ou dar outro nome aos crimes, aos fatos e às realidades, quando nada muda ou se torna proveitoso aos seus objetivos. É que o petismo, o lulismo, o fanatismo e o lamaçal, agindo na defesa do indefensável, acabaram se tornando mestres na distorção dos fatos, objetivando, assim, passar a ideia de vitimização, de perseguição, de atentado injurioso. Transformaram-se em mestres de um ilusionismo tão barato quanto vergonhoso, pois simplesmente mentindo ou negligenciando ante as realidades indubitáveis. Ora, criaram o famoso “é golpe!”, forjaram insinuações acintosas como “condenação sem provas” e “prisão sem crime”, e agora surgem com a farsa de “preso político”. E preso político para dizer que Lula não cometeu os crimes de corrupção, que não foi condenado e preso por corrupção passiva e lavagem de dinheiro e que está preso apenas para não poder ser candidato nem ser eleito presidente. Quer dizer, de forma acintosa, vergonhosa e deslavada, o petismo inverte toda a situação jurídica para tentar atrair a população para mais essa farsa: o preso inocente e santificado.


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terça-feira, 17 de abril de 2018

MARIA CATANDO LENHA



*Rangel Alves da Costa


Era dia de domingo, um dia de descanso para muitos. Mas assim que cheguei ao Assentamento Madre Teresa de Calcutá, na zona rural do município sergipano de Poço Redondo, para uma visita a um amigo, mais adiante, chegando pelo meio da estrada, logo avistei uma mulher com sua carga inusitada. De calça comprida, camisa de pano grosso também de mangas compridas, chapéu na cabeça e luvas pretas nas mãos, com a face queimada de sol, tendo à frente um carro de mão abarrotado de lenha. Seu nome: Maria.
Maria. E talvez nem precise de sobrenome. Ou precise sim, mas apenas Maria do Sertão, Maria Nordestina, Maria da Luta, Maria Mulher, Maria Maria, apenas. Uma Maria incansável na luta, disposta a dar tudo de si para a digna sobrevivência, tecendo sua vida nos duros ofícios debaixo da lua e do sol. Ainda jovem, de rosto bonito e de evidente simpatia humana, bem que podia cuidar apenas dos afazeres da casa. Mas não. Foi avistada já chegando do mato, já voltando do meio do mundo com seu carro de mão tomado de lenha. Madeira em pedaços, catados e recolhidos na mata, para alimentar o fogão de lenha. No lugar do botijão de gás, a lenha dando vida ao fogo e o fogo fervendo a panela com qualquer coisa por dentro.
Logo que avistei Maria senti vontade de registrar aquele momento tão original e representativo da vida sertaneja. Esperei ela se aproximar um pouco mais e depois segui em sua direção. Cumprimentei e pedi permissão para uma fotografia. Ela já me conhecia e por isso mesmo em nada se opôs. Mesmo chegando de longe, carregando um peso grande debaixo do sol, não se mostrava exausta nem entristecida pela vida dura. Parecia acostumada com aquele cotidiano de luta e de correria, onde catar lenha no mato era apenas uma parte do muito dificultoso no dia após dia. Retratei aquele momento e hoje publiquei a fotografia nas redes sociais com as seguintes palavras:
A dignidade pelo trabalho. Eis a melhor tradução para a fotografia abaixo, retratada no Assentamento Madre Teresa de Calcutá, em Poço Redondo. Talvez tenha saído logo cedinho de casa. Talvez nem tivesse tido tempo de tomar uma xícara de café e morder um pedaço de pão. Talvez nem tivesse deixado algum alimento sobre a mesa para os filhos ou os menores de casa. Talvez nem tivesse pensado em pedir a um homem que fizesse o duro trabalho de recolhimento de lenha na mataria ao redor. Talvez nem tivesse pensado em nada senão ir depressa ao trabalho, à catação e extração de toco e pedaço de pau para alimentar o fogão de quintal. Tanto faz o alimento que se tenha. Tanto faz a panelada ou apenas a frigideira com um pedacinho disso ou daquilo. O que importa mesmo é a conquista através da luta. Uma gente assim, disposta e incansável na labuta do dia a dia, sempre tem uma galinha de capoeira, um bicho de cria, um pedaço de carne e de toucinho pendurados no varal nos fundos da casa. Coisa bonita avistá-la na estrada, sentir sua chegada e o sorriso na face. Aproximei-me, proseei um pouquinho para não atrapalhar sua chegada e seu descanso, mas não tive como não pedir para retratá-la daquele jeito assim tão sertanejo. E ela não se negou. Mostrou que não tinha vergonha de ser fotografada assim. Então ela até fez pose. Então eu sorri por fora e por dentro e me reconheci como nunca naquela sertaneja. Ela me representa. Representa sim”.
Apenas um retrato de Maria. Mas quem conhece os sertões e suas Marias, certamente também conhecerá a luta de cada Maria. E esta Maria, a do carro de mão cheio de lenha, aquela que logo cedo sai de casa para o ofício da luta, também aquela que retorna para alimentar o fogão e colocar panela por riba, vai além desse viver mariano para se constituir noutra saga de mulher: a Maria que é pai e que é mãe, a Maria que tem de cuidar dos seus esforçando como mulher e também como homem. E assim por que esta Maria sustenta sozinha uma casa, não possui marido nem pai para seus filhos, e por isso mesmo é tudo no seu lar e na vida dos seus. E uma Maria assim só podia mesmo ter a força e a abnegação de uma Maria sertaneja.


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Lá no meu sertão...


Cariri Cangaço Poço Redondo 2018



Chore não menina flor (Poesia)



Chore não menina flor


Chore não menina flor
quem te ama amará
quem partiu retornará
quem é teu de ti será

chore não menina flor
o outono já passou
a folha o vento levou
a tristeza já acabou

chore não menina flor
passe morango no lábio
jogue lavanda no corpo
bote uma rosa no cabelo

e vá viver menina flor
e vá amar menina flor
quem te ama já desponta
e quer um buquê de amor.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - os elefantes e as baratas



*Rangel Alves da Costa


Vivemos, sim, num mundo permeado de elefantes e de baratas. Ao menos pelo que os elefantes acham que são baratas, que são rasteiras, miúdas e podem ser pisoteadas a qualquer instante. Os elefantes, estes sim, sempre se reconhecendo como tal, pois graúdos, enormes, imensos, ameaçadores, de ataques devastadores. Numa savana, eis os elefantes e as baratas. Os imensos paquidermes com a feição de Estado, de governante, de político, de autoridade, de mandachuva. Já os insetos rastejantes com a feição de gente, de povo, de desvalido, de pobre, de mero sobrevivente na exclusiva e indigna ordem social. E chegam os elefantes com suas patas enormes, com sua lentidão preguiçosa, mas de ataque voraz, logo procurando aqueles que têm como nojentos, asquerosos, abjetos: as baratas. Ora, perante o olhar paquiderme, ser povo é ser nada, é ser ninguém, é ser a abjeção do mundo. Perante o olhar elefantídeo, ser gente é ser o esterco, o verme, o abominável. Na sua altura e no seu tamanho, sem a mínima preocupação com o que está abaixo - que é o povo-barata -, o que se tem é a pisada esmagadora, é a patada dizimadora. E tanto faz que a pobreza fique totalmente esmagada sob suas patas. Importa seguir adiante, cada vez mais volumoso e ameaçador. E para trás ficam os restos esmagados daquilo que nenhuma valia possuía perante o poder.


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segunda-feira, 16 de abril de 2018

OS ÓDIOS E OS AFAGOS



*Rangel Alves da Costa


Ao longe já se avista as mudanças na estação. Os jardins secretos começam a se alvoroçar, as flores do bem e do mal começam a exalar seus aromas, os canteiros são tomados de ervas daninhas. Por que assim, alguém perguntaria. Ora, chegando a estação mais triste, mais vergonhosa, mais aviltante, mais mentirosa, mais tudo que há de o impensável acontecer, que é a temporada política, das disputas eleitorais, dos confrontos.
Uma temporada tão surpreendente quanto assustadora que faz o já desacreditado se transformar em indecisão ou, num termo mais conveniente, fazendo o espantoso se tornar em absurdo. Sim, eis que nesta temporada tudo acontece e tudo pode acontecer. Há um nó, um desenlace do nó, um aperto e um desaperto, uma soltura na corda, e cai se mantenha de pé quem estiver mais força e resistência. E mais: paixões que passam a se odiar, amores que se acenam em adeus, despedidas e retornos, afagos e sangramentos.
Nada mais medonhamente instigante que a temporada política que se aproxima. Ainda se aproxima e já produz resultados que seriam surpreendentes senão esperados. Sempre acontece assim. Quando, no passado, amigos, grupos e forças se reuniram para semear os frutos de uma possível vitória, e de mãos dadas, beijos e carinhos, prometeram eterna união, somente os desajuizados sabiam que tudo não passava de uma encenação. Tudo para o momento, apenas. Na política é assim: as amizades, os acertos e os conchavos, sempre têm hora para acontecer e para perdurar. E quanto tempo dura? Somente até o próximo pleito.
Buscando um nome apropriado para tal temporada, outro não é possível encontrar senão a conveniência. Considerando que conveniência significa utilidade, valor, proveito, lucro, vantagem e interesse, logo se tem o retrato emoldurado da estação política. Tudo passa a ocorrer segundo os interesses, as vantagens e os lucros que podem advir. E para tal não há limites morais para a ação. Não cabe ética nem integridade de caráter, não cabe honestidade nem compromisso, não cabe honradez nem a palavra dada, pois no jogo de interesses e espertezas tudo passa a valer a pena.
Neste jogo, ou nos ventos que sopram nesta acintosa estação, o que menos importa é o eleitor, aquele votante que no passado acreditou no compromisso firmado. Na verdade, o eleitor, enquanto pessoa, nunca vale absolutamente nada para o político. Seu único valor é o eleitoral, o de votante. No restante é visto apenas como um fardo que cobra, que quer, que faz o político ser forçado a tirar dinheiro do bolso. Por isso mesmo que sua contagem é sempre feita pelo número de votos, pois o político sempre diz que ali tem tantos votos e nunca que ali possui tantos e tantos amigos que podem votar.
Mas sempre foi assim. Sergipe mesmo é recheado de escabrosos exemplos. Político que acusa o outro de ter matado um familiar e depois ser avistado de mãos dadas com o acusado. Político que achincalha o outro até a raiz mais profunda e depois aparece ao lado deste espalhando sorrisos, apertando mãos e pedindo votos. Político que até processa civil e criminalmente o outro, mas na eleição seguinte já parecem dois apaixonados. Namoram, noivam, casam, juram eterno amor. Mas não há mais divórcios do que na política, e por meio de um processo tão vil como vergonhoso. São esculhambações de parte a parte, são baixarias tamanhas que somente de um desamor político se pode esperar.
Os ventos de agora, antes que cheguem os turbilhões e os vendavais, já mostram os queixumes, os lamentos. É uma seara política onde surgem as reclamações, onde começam a serem mostradas as ingratidões e até as raivas. Os ódios e os arroubos ferinos virão mais tarde, assim que as alianças forem definidas e os antigos enamorados estiverem de mãos separadas, soltas ao próprio destino, e cada mão agora segurando uma pedra para jogar no outro. Não só pedras, mas palavras virulentas, gritos exacerbados, acusações saídas de esgotos e ataques e contra-ataques de toda ordem. Um festim de mentiras, aleivosias, hipocrisias, leviandades, pois tudo farinha do mesmo saco, como dizia Totonho da Lagoinha. Aliás, foi o Velho Totonho que esboçou a mais perfeita definição de casamento político: É a união que já nasce para a traição.
Agora mesmo, em Sergipe, os laços matrimonias da política já estão, na maioria, sendo desfeitos. Os processos estão em andamento e as brigas e as queixas de parte a parte se acirram. Mas a expectativa é tamanha que tem gente já namorando com outras siglas e políticos antes mesmo que os vínculos se quebrem de vez. As conveniências mandam que o melhor agora seja apenas se vitimizar, dizer que está sendo traído e assim passar para a opinião pública a ideia de coerência. Contudo, todos sabem que nesse metiê não há vítimas nem culpados, mas apenas espertos tentando atrair atenções.
E logo novos namoros começarão, novas juras serão feitas e os afagos se darão de parte a parte. E de mãos dadas se mostrarão junto aos eleitores. Mas tudo com prazo de validade. Até somente os próximos pleitos ou mesmo antes. Quando o vencedor renega o apoiador, então o romance está desfeito.


Escritor
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