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terça-feira, 29 de agosto de 2017

O OUTRO PERANTE OS OUTROS


*Rangel Alves da Costa


Lamentável que assim aconteça quase como um costume, um hábito, um normal cotidiano: achar que não tem o que fazer e logo procurar cuidar da vida dos outros. Ou mesmo simplesmente desfazer do que os outros fazem, e sempre de modo infame e vergonhosamente destrutivo.
É que para muitos a vida dos outros se torna de maior importância do que mesmo a própria vida. Contudo, se há um lado maldoso nisso tudo, por outro lado há até uma necessidade quando se respeita os limites da privacidade. É que ninguém pode imaginar que tudo faça sem que os outros percebam. Desse modo, o que o outro faz não compete somente a este, mas também ao próximo.
E há de ser assim mesmo porque as ações humanas merecem ser vistas e obter respostas aqui na terra mesmo. O bem ou o mal que é feito não pode simplesmente ser relegado ao plano do esquecimento, do já passou, do apagar-se nas páginas do tempo.
Já cantaram em eco e grito que ninguém é uma ilha. Ora, se ninguém consegue isolar-se completamente, então alguma presença ou vigilância externa faz parte de sua vida. O olho ao redor mira vida e tudo e acaba sabendo um balaio de coisas sobre o outro, ainda que este faça o máximo para que deixem sua vida em paz.
Contudo, quando falo da importância de que o outro seja visto perante suas ações, não o faço no sentido de que alguém, a todo custo, queira se intrometer na vida partir de quem faz o que bem quer da vida. Preocupar-se com o outro, vigiá-lo, acompanhar os seus atos, apenas para expor sua privacidade é atitude que contraria normas fundamentais inerentes à personalidade.
Ao falar da necessidade e positividade de interagir com as ações do outro me volto apenas para o que está caracterizado como visibilidade pública. Tal termo seria no sentido de indicar aquilo que já foge ao mundo secreto e particular de cada um e se torna conhecido de todos, ainda que parte das pessoas não se atenha cuidadosamente para o que o outro faz.
Não se trata aqui de fazer apologia da fofoca, do simplesmente bedelhar, se intrometer na vida do próximo, mas sim de vê-la naquilo que há de mais bonito e de tudo tirar possíveis lições. Do mesmo modo, não ter medo nem vergonha das atitudes negativas do outro e fazer daquele exemplo um meio de não incorrer nos mesmos erros.
Verdadeiramente não há coisa mais feia e abominável para um ser humano do que levar a vida – logicamente esquecendo a própria – em função da vida do outro, do que ele faz, que roupa veste, com quem anda, se passo cheiroso ou suando. E mais ridículo ainda quando faz isto para buscar motivos para a fofocagem, o invencionismo, a deslavada mentira.
O que proveito que se deve tirar da vida do outro é totalmente diferente. Pessoas existem que vivem para a prática do bem, pra o compartilhamento, para a solidariedade. Estas estão em direção aos asilos, aos hospitais, aos abrigos, às creches, a qualquer lugar onde possa dedicar uma parcela de ajuda e de amparo aos mais necessitados.
Pessoas também existem que distribuem sopas aos que estão abandonados embaixo de marquises, que vão visitar e tentar confortar desconhecidos que estão enfermos, que se reúnem com outras para a realização de obras de caridade, que adotam de coração crianças gravemente doentes, não se cansam de dar uma parcela do seu esforço físico, espiritual e até financeira em função do outro.
Mas o inverso ou reverso existe, e do mesmo modo também é visível, pois os atos são escancaradamente praticados. Não há nem mais que se falar nas práticas criminosas levadas a efeito por tantos e tantos, pois nem a pena nem o sofrimento em uma prisão parece ter o poder de afastar determinados indivíduos dessas nefastas atitudes. O pior é que muitos, mesmo sabendo das consequências da prática de atos ilícitos, seguem por vontade própria os mesmos caminhos da vida criminosa.
Quanto a estes, os exemplos já estariam claros demais. Porém, cotidianamente se observa outras atitudes em cujo espelho ninguém deverá se mirar. Viver falando mal da vida dos outros, criando situações mentirosas para prejudicar, incentivar os mais jovens ao mau comportamento, sempre ter o outro como inimigo, como alguém imprestável. E ainda a arrogância, a brutalidade, a desonra, o egoísmo, a vaidade exacerbada, a egolatria, tudo isso está exemplarmente na imagem de muita gente e que deve servir como norte para o outro que observa tais atitudes.
Daí que a vida do outro, por não pertencer exclusivamente a este, passa a ser exemplo que deve ser seguido, ou não, pelos demais. Ademais, como dificilmente algum fato surge totalmente novo na vida, então que os exemplos dos outros sirvam tanto para atrair como para se evitar.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

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