SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

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sexta-feira, 14 de abril de 2017

Palavra Solta – santíssima


*Rangel Alves da Costa


Santíssima é a sexta-feira santa. Ainda assim os mistérios dos lobisomens e das assombrações, dos bichos feios que correm após a meia-noite, dos pavorosos seres transmudados em feras de uivos lancinantes. Santíssima é a sexta-feira santa. As velas queimam incessantemente e as rezas e ladainhas velando o Senhor morto. Vozes plangentes de um povo também martirizado pelas agruras e angústias da vida, mas ainda carregando imensa fé na suprema religiosidade. Santíssima é a sexta-feira santa. As matracas guizam, os tambores ecoam, os mascarados surgem nas esquinas escurecidas, os penitentes retinem sons de dor e tormento. As túnicas brancas descem da cabeça aos pés, nas mãos as tochas e os fogaréus, também nas mãos as lâminas pontiagudas para lanhar o corpo em rituais de fé. Passam pelas ruas, viram esquinas, somem na nua, mistérios apenas. Santíssima é a sexta-feira santa. Mas mundana também, igualmente carnal, igualmente pecadora. Cálices de vinho, bebidas, petiscos, ardências no corpo e na alma. Já não se faz uma sexta-feira santa como antigamente. A santíssima foi violada pelo homem e toda fé já vai sendo transformada em festa. Daí as gulas, as comidas com coco, os copos cheios, as bebedeiras, tudo em nome da santíssima.
  
Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

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