SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 27 de março de 2017

RANGEL E SEU MUNDO


*Rangel Alves da Costa


O mundo de Rangel começa quando Rangel corta chão e coloca os pés em sua Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo. É, pois, em Poço Redondo, mais precisamente pelos arredores da cidade, nas estradas de chão e veredas de espinho e pó, e dentro do Memorial Alcino Alves Costa, que o mundo de Rangel começa e se expande. E se alarga e se transforma em horizonte.
Há nesse Rangel de mundo sertão um orgulho bom que antecede a tudo. A graça divina de ter nascido de Dona Peta e Alcino é fato incomparável a qualquer outro. E também das raízes vindas de Mãeta e Pai China, de Dona Emeliana e Seu Ermerindo. Significa dizer que esse Rangel já vem de raiz tão pujante quanto o sertão mais rico em históricos valores.
Quando Rangel da capital desaparta e vai chegando às entranhas do seu sertão, então é como se a vida nele renascesse em sua inteireza. Depois da Boca da Mata, quando logo é acenado pelo xiquexique, o facheiro e o mandacaru, passando pelas casinholas de beira de estrada e sombreados umbuzeiros, seu olhar não é outro senão de encantamento.
Encantamento com a vida, com tanta vida, com a vida sertaneja que se mostra grandiosa mesmo perante as mais difíceis situações. Então Rangel vai entrando com o olhar em cada casinha, vai conversando com o olhar com cada criança debaixo de pé de pau, vai proseando com cada sertanejo. Conversa e é ouvido, pois tudo isso depois se transforma em escrita.
Mas já depois de Sítios Novos é que Rangel se despe de vez da cidade, da vida acadêmica, do mundo jurídico, dos afazeres e ofícios da capital e além. A partir desse limite é que Rangel se sente tomado, de corpo e alma, pelo sol, pela lua, pelo gibão, pelo chapéu de couro, pela aprecata de couro cru, pelo aió, pela simplicidade de um povo, pela humildade do conterrâneo.
De Sítios Novos à sede municipal é um pulo, como se diz. No asfalto, a linha reta é apenas uma estrada. Mas que nada aos olhos de Rangel. Cada passo e cada pedaço de chão são de história pura. Naquelas terras um dia brotaram as grandes fazendas de potentados como João Maria de Carvalho e seu irmão Piduca Alexandre, dentre outros, ali reinado de Manoel e Bastião Joaquim.
Naqueles arredores batalhas sangrentas entre cangaceiros e volantes, naqueles horizontes ainda o chão cravado de balas da Fazenda Pias e da Maranduba, adentrando mais arriba. Por ali também as nascentes das lutas pelo reforma agrária no latifúndio da Barra da Onça de Toinho Leite. Mais perto da beira da estrada a Queimada Grande e a lembrança de Seu Zé Ferreira e todos os grandes proprietários que o antecederam.
Ali também a recordação dos barracos na beira da pista e as bandeira do MST tremulando o grito da inclusão. Quem avista hoje o Assentamento Queimada Grande, com seu aspecto de povoação em crescimento, há também que lançar um olhar ao passado de tantas lutas. Desde aquelas lutas cangaceiras às lutas do homem em busca de seu pedaço de chão, e nisso tudo a face da violência, do medo e do espanto.
Rangel avista tudo isso e vai anotando no embornal de sua memória. E quando, já do alto do Hotel Fazenda, lança o olhar sobre sua cidade, seu berço de nascimento, então os seus olhos começam a brilhar diferente, o seu coração a pulsar mais forte, a sua ânsia extremada de colocar logo os pés no chão e sentir a quentura da terra. Somente aqueles que amam abraçam todo o seu mundo com um simples olhar.
E perante o Memorial Alcino Alves Costa, certamente que Rangel encontra o seu paraíso. Ali o lar de um dia, mas hoje ainda com maior significação em sua vida. Quando abre as portas e encontra diante de si tudo o que foi construído para preservar memórias e vidas, é como se um filho querido corresse aos seus pés para o abraço. Mas o filho ali é outro. É o próprio Rangel diante do pai Alcino, de sua obra, de sua importância no mundo sertanejo e nordestino.
E quando Rangel vai lentamente caminhando pelo Memorial, limpando e ajeitando em cada canto, sente que está sendo carinhosamente olhado por olhos que certamente não estão somente nos retratos e banners. Seu Alcino e Dona Peta jamais deixam de olhar cada passo de seu filho Rangel. Ali no Memorial e na vida.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

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