SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 28 de julho de 2014

CHUVAS DE INVERNADA


Rangel Alves da Costa*


Chegam-me boas notícias do sertão. São alentos que caem como bençãos sobre um povo sofrido. Os relatos dizem da presença do clima diferenciado nesta época do ano e das constantes chuvas que vêm caindo por lá. Também das paisagens renascidas esverdeadas, das águas juntadas nos tanques e barragens e das esperanças tantas refletidas nos olhos sorridentes do sertanejo. Até quando será difícil saber, eis que sertão anoitece na festa da lua grande e amanhece abraçado pelo sol imenso.
Quando não está chovendo e o sol reaparece fogoso, novamente o calor se espalha pelos quadrantes. Mas nesta época é diferente, pois não há calor que não vista um casaco de frio após o entardecer. Da Boca da Mata em diante, ou da região de Nossa da Glória adentrando o sertão, a intensidade de frio é certeira entre os meses de julho a setembro. Em determinados lugares a frieza é tão grande que fogueiras surgem nas noites sertanejas relembrando o São João. E ao redor famílias inteiras enroladinhas em cobertores e ainda assim batendo o queixo. Desse jeito já está por lá.
Certamente que os corações sertanejos estão pulsando mais forte, mais cheios de felicidade. Não era pra ser diferente. Não há nada mais alentador e comovente que sentir as águas se derramando, enchendo as fontes e transformando as paisagens. Depois de tanto tempo de estiagem, com bicho e homem enganando a sede com esmola na lata, com pastagem esturricando e sem ao menos um restinho de palma para matar a fome do que restou da criação, o sofrimento é aliviado em cada pingo d’água que cai. O sertanejo sabe que logo outra seca surgirá devorando tudo, porém se faz de esquecido para celebrar as grandezas do momento.
O tempo certo do plantio já passou, pois em começos de abril a terra já deve ser preparada para receber os grãos. Se o tempo for bom não faltará o milho verde para assar na fogueira junina. Mas tudo na dependência do clima, das tendências da estação, do surgimento de nuvens carregadas. E raramente assim acontece. Chega o São João e nem um pé de planta vingada na terra seca. Por isso mesmo que muitos sertanejos arriscam os grãos guardados quando chegam as trovoadas típicas desse período. O chão encharcado, gordo, vai engolindo a semente para talvez germinar. As chuvas não faltam, por enquanto não.
São as chamadas chuvas de invernada. Diferentemente do conceito que se dá em outras regiões do país e outras situações, quando a invernada é tida como local para confinamento do gado de engorda ou às pastagens surgidas após um período mais chuvoso, o sertanejo a denomina como a constância de chuvas fora do período esperado. E principalmente por causa das chuvaradas que chegam tardias, vez que é entre os meses de abril a maio que os sertanejos esperam as trovoadas.
Acerca da invernada, dizem os livros que é o período de chuvas prolongadas, contínuas durante a estação que, no Norte e no Nordeste, é impropriamente chamada de inverno. Ora, mas nada impróprio na concepção sertaneja, vez que para os que lidam com a terra, que plantam e dela dependem para sobreviver, “inverno bom” é qualquer estação bem chuvosa, com chuva continuamente caindo para garantir a terra molhada, e principalmente se for depois do inverno.
É, pois, no contexto que se apresenta, quando a chuvarada mais forte já encheu as fontes e agora vai caindo diariamente com mais ou menos força, que o velho sertanejo chega diante do vizinho de roçado e diz que “agora invernou de vez”. O outro responde “que a invernança demorou a chegar, mas chegou”. E olham pra cima e avistam o tempo fechado, horizontes carregados de nuvens prenhes, uma visão totalmente diferente daquela que estão acostumados a suportar.  E olham ao redor e divisam a vaquinha de couro molhado e boca cheia, os sons dos bichos enfurnados nas tocas. E também um cágado surgido da mata para anunciar que logo cairá trovoada das grandes.
Mas não só no sertão a invernada muda os cenários e as paisagens. Por todo o estado os sinais de chuvas se anunciam desde o amanhecer. Todo Sergipe está molhado, chuvoso, sentindo a renovação da natureza, das pastagens, das plantações. Mas também alagado em muitos lugares, com rios e córregos transbordando e causando aperreios em muita gente. E um sofrimento danado àquelas famílias morando em barracos, em casas de barro, em lugares de constantes riscos de desmoronamentos.
Aracaju sofre sua sina de invernada. Não só de invernada como de qualquer chuvarada mais forte. Basta chover um pouquinho a mais que a cidade inteira vira um caos, com ruas intransitáveis, bueiros transbordando, esquinas que mais parecem açudes. Igualmente os sertanejos, os administradores municipais também parecem gostar do acúmulo de águas pela cidade. E por isso nada fazem para resolver os problemas surgidos a cada pé-d’água. Os mesmos problemas surgem sempre nos mesmos lugares e absolutamente nada é feito para diminuir os estragos.
E assim a chuva vai caindo por todo lugar. São águas novas que lavam as ruas, molham a terra, alentam os espíritos, transformam o clima, causam uma cuia de nostalgia. Tão bom adormecer ouvindo o barulho dos pingos no telhado, se despejando lá fora. Tão bom acordar com a manhã molhada e a vida chamando a semear. A cidade apenas sente e sofre aqui e acolá com as chuvas caídas, mas todo o sertão se encanta e prazerosamente brada pela dádiva recebida.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com 

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