SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 10 de outubro de 2013

AS LIÇÕES DA VIOLA

Rangel Alves da Costa*


Dizem que num sertão bem distante, terra de gente humilde e trabalhadora, de sofrimento e esperança, muitas vezes o alento do homem desesperançado com as estiagens infindas era o pontear a viola nos fins da tarde de vento leve ou no anoitecer de lua imensa, luar sertanejo em toda sua magnitude.
E assim estavam dois velhos caipiras adiante de uma casinha, sentados em tamboretes, tendo ao lado uma pinguinha com raiz de casca de pau, e uma velha viola de pinho deitada nos braços de um deles. Não demoraria e surgiria uma nota, depois um ponteio e uma toada de amores antigos e relembranças tantas.
E este se voltou para o amigo e disse que muitas vezes aquela mesma solidão sertaneja em que se encontravam já havia servido de motivo pra muito violeiro e cantador rabiscar a melhor poesia matuta. E depois transformar as palavras bonitas e singelas em canções da vida inteira, servindo não só para o homem do campo como para o da cidade.
Então o outro confirmou ser verdade o que o amigo dizia e ajuntou dizendo que existia música caipira enraizada apenas na lida do homem matuto, mas que, pelas lições contidas em cada verso, se elevava nas mesmas qualidades dos ensinamentos bíblicos. E lembrou-se de duas, que cantarolou desafinado, com a ajuda do som da viola. A primeira foi “Couro de Boi”, de Teddy Vieira e Palmeira, recitando a primeira parte:
“Conheço um velho ditado que é do tempo do zagaio/ um pai trata dez filhos, dez filhos não trata um pai/ Sentindo o peso dos anos, sem poder mais trabalhar/ o velho peão estradeiro com seu filho foi morar/ O rapaz era casado e a mulher deu de implicar/ ou você manda o veio embora se não quiser que eu vá/ e o rapaz, o coração duro com o veinho foi falar: Para o senhor se mudar meu pai eu vim lhe pedir/ hoje aqui da minha casa o senhor tem que sair/ leva este couro de boi, que eu acabei de curtir/ pra lhe servir de coberta, adonde o senhor dormir/ O pobre velho calado, pegou o couro e saiu/ seu neto de oito anos que aquela cena assistiu/ correu atrás do avô, seu paletó sacudiu/ metade daquele couro, chorando ele pediu/ O velhinho comovido pra não ver o neto chorando/ partiu o couro no meio e pro netinho foi dando/ O menino chegou em casa, seu pai foi lhe perguntando/ pra que você quer esse couro que seu avô ia levando?/ Disse o menino ao pai: um dia vou me casar/ o senhor vai ficar veio e comigo vem morar/ pode ser que aconteça de nós não se combinar/ esta metade do couro, vou dar pro senhor levar”.
E depois “A Enxada e a Caneta”, de Teddy Vieira e Capitão Balduíno, também declamada no início dos versos:
“Certa vez uma caneta foi passear lá no sertão/ Encontrou-se com uma enxada, fazendo uma plantação/ A enxada muito humilde, foi lhe fazer saudação/ Mas a caneta soberba não quis pegar na sua mão/ E ainda por desaforo lhe passou uma repreensão: Disse a caneta pra enxada não vem perto de mim, não/ Você está suja de terra, de terra suja do chão/ Sabe com quem está falando, veja sua posição/ E não se esqueça a distância da nossa separação/ Eu sou a caneta dourada que escreve nos tabelião/ Eu escrevo pros governos a lei da constituição/ Escrevi em papel de linho, pros ricaços e pros barão/ Só ando na mão dos mestres, dos homens de posição/ A enxada respondeu: de fato eu vivo no chão/ Pra poder dar o que comer e vestir o seu patrão/ Eu vim no mundo primeiro, quase no tempo de Adão/ Se não fosse o meu sustento ninguém tinha instrução/ Vai-te caneta orgulhosa, vergonha da geração/ A tua alta nobreza não passa de pretensão/ Você diz que escreve tudo, tem uma coisa que não/ É a palavra bonita que se chama educação!”.
Depois de uma talagada como brinde, o cantador falou que sabia serem as letras dessas músicas também fruto de gente até formada, de anel no dedo e tudo mais. Portanto, nem sempre o vivente da situação era o criador da canção. Ao que o outro acrescentou não ter qualquer importância ser assim, pois o mais importante mesmo era sentir o cheiro da terra e do sertanejo em cada verso.
E dedilhou, cantando pra lua: “De que me adianta viver na cidade/ Se a felicidade não me acompanhar/ Adeus paulistinha do meu coração/ Lá pro meu sertão eu quero voltar...”


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com 

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