SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 8 de novembro de 2012

LAGARTIXAS, CALANGOS E CATENGAS (Crônica)


Rangel Alves da Costa*


Arrepare não, arrelie não, é que estou sertanejo demais esses dias. Aliás, tinha de ser ainda mais sertanejo do que tenho sido. E tudo pra esse horizonte cimentado não querer afastar de mim a visão do mandacaru, do xiquexique, do sol calorento até mesmo na madrugada.
Podem falar ou pensar o quiser, mas não troco meu sertão por nenhuma ilha da fantasia. E é lindo, de beleza infinita, assim mesmo como o citadino imagina: a exuberância da natureza ladeando a pobreza, a lua imensa após o sol causticante, o prazer pela vida ao redor da desesperança. 
Ah, Poço Redondo, não me deixe assim tão entristecido, assim tão melancolia, querendo pegar o alforje e arribar o seu caminho. Tenho no meu coração um aió e um gibão, chapéu de couro e alazão. E as lembranças são tantas que a saudade me chega de forma inesperada e através de pensamentos mais inesperados ainda.
Acredite seu moço, mas a verdade é que dei pra povoar minha cabeça, janelar meu pensamento, com alguns habitantes geralmente esquecidos do meu lugar. Eis que de repente me vejo pensando em lagartixas, calangos e catengas. Aqui também tem lagartixa de parede, de azulejo, mas coisa esquisita demais. Nojenta, asquerosa até. Nada como meus rastejantes de lá.
Vejo, sinto os pequenos lagartos, répteis de vários tamanhos e tons acinzentados, correndo desconcertados, bambeando, numa pressa danada, talvez procurando fugir do forno quente daquele chão esturricado. Com a seca e a morte da mata, assim que o sol bate parece fogo cuspido por cima da terra. Coitado de quem anda nela. Mas é a sina do lagartinho andar por ali.
São todos da família dos teiús, por isso mesmo teiídeos. Mas teiú é muito feio, esquisito, senão assustador, ainda que tenha uma carne esbranquiçada como peixe e muito apreciada pelo sertanejo. Já experimentei e na hora não distingui muito se era peixe ou outra coisa que estava no prato. Mas por via da dúvida, virei duas goladas de casca de pau, cachaça apurada, antes de saborear.
Mas vejo até como pecado alguém arremessar pedra de baleadeira na cabeça da lagartixa, do calango ou da catenga. Mas tem menino sertanejo que não tá nem aí. Por fome ou danação, avista ao longe a danadinha por cima da pedra e não dá nem tempo de fuga. A pedra vai na direção certa. Como é tão miudinha, muitas vezes nem tem o trabalho de tirar o couro. Joga na brasa assim mesmo.
Não devia ser assim não. Cada pai, cada mãe, seja lá quem for, tem o dever de avisar aos seus que não devem fazer assim com bichinhos tão indefesos, principalmente porque, ao lado das cactáceas, do preá, da macambira e da catingueira, também simbolizam o sertão. E a simbologia é ainda maior porque somente eles continuam cortando chão quando tudo praticamente já morreu, já esturricou.
Naqueles tempos terríveis, ou todas as vezes que o sertão acinzenta de seca e devastação, e quando somente os galhos secos e as pedreiras continuam no lugar, as lagartixas, os calangos e as catengas continuam perambulando sem acreditar no que vêem. Por isso mesmo é que ficam por cima das pedras balançando incessantemente a cabeça de lado a outro. Não estão querendo avistar ninguém, mas simplesmente não acreditando no que estão vendo adiante.
Quem quiser avistá-las vá lá ao meu sertão. Mas não pense que aquele bichinho avistado subindo pelas paredes, apressadamente se escondendo pelos cantos, seja lagartixa, calango ou catenga. Não. Aquilo ali é a tal da briba. Isso mesmo, briba, que é uma espécie de lagartixa da cidade, miudinha e de um esbranquiçamento incolor, com as mesmas características da outra, só que preferindo estar pelas paredes e pisos a viver aos pulos e correrias nas fornalhas do chão sertanejo.
Não demorarei muito e estarei de volta ao meu sertão. Lá quero usar camisa de dois bolsos e andar de pés no chão, ainda que por cima das pedras miúdas e dos espinhos traiçoeiros. Tem nada não, sertanejo sou meu senhor.
E por que a camisa de dois bolsos? Ora, direi. Num um punhado de terra, noutro uma catenga. No meu retorno ela não estranhará tanto esse chão angustiante onde piso.
  

Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com  

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