SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sexta-feira, 6 de julho de 2012

ESTÓRIAS DOS QUATRO VENTOS: ALI O SILÊNCIO, ALI A SOLIDÃO... (72)


                                                   Rangel Alves da Costa*


Quando os dois vultos se dissiparam, Crisosta permaneceu em pé, completamente estática, por mais uns três minutos. E talvez ficasse mais se não ouvisse o cachorro latindo logo atrás.
Que coisa mais misteriosa era esse cachorro. De vez em quando entrava no meio do mato, sumia de vez, parecendo que jamais voltaria. Outras vezes era avistado ao longe, farejando de lado a outro, porém sem buscar aproximação da casa. Agora estava ali, latindo e parecendo que tinha visto coisa estranha.
Mas Crisosta nem estava com cabeça para pensar nisso. Voltou-se, olhou em direção ao cachorro, e sem dar importância alguma saiu caminhando. Nos passos e no jeito que ia, talvez nem soubesse bem qual rumo tomar. Seguir pro lado da mata seria o mesmo que se dirigir à porta de casa.
Acertou o passo no caminho de casa, enfim. Parou no meio do tempo, ficou mirando os diversos traços da paisagem ao redor, em seguida virou o rosto pra cima, apertou os olhos e assim permaneceu por quase um minuto.
O sol quente, fazendo os seus raios descerem feito fios de fogo, repousava por cima do rosto totalmente avermelhado, completamente suado, pingando suor. Baixou a cabeça, levantou a barra do vestido até o rosto e enxugou-o.
De calcinha de renda, pernas lindamente torneadas, coxas firmes, macias e ligeiramente grossas, bem que poderia haver um olhar apaixonado ali para se encantar. Realmente, que encanto de mulher, ainda que a idade fosse silenciosamente avançando sobre aquele corpo, sobre aquela bela mulher, sobre aquele ser de sol, de lua e de solidão.
Baixou a roupa e se encaminhou para a porta de casa com o rosto ainda mais avermelhado. Já estava quase na entrada quando parou novamente e se pôs a olhar pra cima. O cachorro novamente latiu ao seu lado, porém nem procurou saber o que atormentava o animal.
Ultrapassou a portada sem se importar com o cachorro que continuava latindo cada vez mais alto e mais apressado bem ali do lado de fora. Desesperado, vendo que os latidos não surtiam efeito, o animal começou a rugir com ferocidade e cavar a terra com as patas. Nada disso surtia qualquer efeito na mocinha.
Lá dentro, não foi em outra direção senão à janela. Dessa vez não sentou na cadeira de balanço, que foi afastada pra que ela se pusesse no umbral, com os olhos vidrados, de brilho forte e pouca movimentação, direcionados ao mundo lá fora. Talvez toda paisagem e nada, pois jamais alguém poderia identificar um ponto onde ela pudesse estar mirando.
O sol forte demais confundia o olhar. Por mais que quisesse enxergar claramente alguma coisa seria impossível. Contudo, certamente ela não estava querendo ver nada especial, alguma coisa exclusiva, mas apenas olhar adiante, mirar adiante, estender os olhos adiante.
Também não havia nada de significativo que chamasse a atenção. Já conhecia aquilo tudo como a palma da mão. A mesma mataria, as mesmas árvores, os mesmos garranchos, bichos passando, bichos correndo, veredas e caminhos. Só não havia gente para enxergar. Mas olhava e olhava...
E tudo saindo de um rosto triste, avermelhado pelo calor, de pele fervente e voltando a ficar molhada de suor. Ficou assim nesse estado e nessa posição por mais de hora, com o cachorro sempre vociferando perto da porta e nada dela prestar atenção.
De repente saiu da janela, se encaminhou para a porta e tomou novamente a direção da malhada. O cachorro quase lhe morde a perna para chamar atenção, para mostrar que procurasse a pedrinha, para apontar o local exato onde ela estava. De nada adiantou.
Ela simplesmente foi caminhando cada vez mais para frente até pisar em planta rasteira, entrar no mato e sumir.
Continua...  


Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com
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