SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 25 de março de 2012

ESTÓRIAS DOS QUATRO VENTOS: A MELHOR HORA DO DIA

ESTÓRIAS DOS QUATRO VENTOS: A MELHOR HORA DO DIA

                                          Rangel Alves da Costa*



Conto o que me contaram...
Logicamente que para o sertanejo o dia é recheado de horas boas, ainda que persista aquele antigo sofrimento causado pelas estiagens e pobreza constante e continuada. E é tomado de momentos prazerosos porque as belezas do sertão não permitem que seja diferente.
O amanhecer sertanejo é a maior belezura do mundo, como diria o outro. Desde o momento que o galo canta até o sol se firmar lá por riba, então tudo é encantamento no cântico da natureza, no festejar dos bichos, nos olhos matutos sempre agradecidos.
Com o anoitecer não poderia ser diferente. Depois que o sol se vai, o tempo começa a se ver livre daquela quentura terrível, a brisa amainadora começa a soprar, tudo se torna em paisagem sombria de imensa beleza. Depois vem a noite com seus idílios, a lua imensa e bela, o dedilhar na viola, o proseado debaixo do céu estrelado.
Mas não há dúvida que há outro momento no dia do sertanejo que sempre supera isso tudo, mas não superando os encantos desses outros instantes, e sim pelo prazer do encontro entre amigos, da conversa debaixo do pé de pau, da cadeira de balanço na calçada, da meninada correndo atrás de bola, soltando pipa e cavalgando no seu alazão de pau.
Digo do entardecer sertanejo, instantes que antecedem a boca da noite se abrir. É nesse instante mágico, desde o momento em que o sol não tem mais o poder de espantar ninguém, que a vida do sertanejo fica mais animada, mais prazerosa, mais amigueira, mais compartilhada entre todos aqueles viventes.
É a hora do retorno da labuta do dia, do sentar defronte à casa para observar a vida que passa, do procurar os bancos da praça para reencontrar os amigos, de seguir até o botequim tomar um lapada de pinga e jogar conversa fora. É hora, principalmente, do diálogo, do colocar os assuntos em dia, de falar da vida dos outros, de fingir que se espanta com o que já sabia, de viver aquela mesma vida de sempre de modo diferente.
A meninada, sempre descalça, sai correndo com a bola murcha debaixo do braço; a menina bonita, toda perfumada, de cabelo de trança e batom na boca, se põe na janela feito uma princesa à espera do seu encantado; a fofoqueira finge que vai varrer a calçada e fica andando de lado a outro olhando a vida dos outros, do jeito que vão, com quem vão, com que roupa estão.
As velhas senhoras e seus vestidos floridos sentam-se confortavelmente nas calçadas a imaginar a vida, a rememorar, a lembrar dos tempos idos, a falar sozinha, a sorrir e a chorar. Num instante e já estão gritando pro neto ter cuidado com aquela bola na vidraça de dona encrenca. Mas o menino nem se importa, chuta ainda mais forte, corre mais ainda e parece mirar bem no varal onde a roupa limpinha continua estendida.
Dali a pouco os habitantes vão entrando nas suas casas, suas moradias, E não demora muito para subir pelo ar um cheiro estonteante, gostoso demais, de café torrado. E que profusão de cheiros, um tanto de cuscuz de milho ralado no quintal, de tripa sendo torrada, de bolo de macaxeira saindo do forno. E talvez a noite, faminta como é, se apresse em aparecer para saborear também um pouquinho daquilo tudo. 



Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

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