SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

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segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

POÇO REDONDO AFUNDA-SE PELAS MÃOS DE GRANDE PARTE DE SEU PRÓPRIO POVO


*Rangel Alves da Costa


Creio que absolutamente ninguém deveria criticar as ações de qualquer gestor municipal. Ao menos aqueles que não façam uma autocrítica. A culpa é pessoal, das pessoas, e não desta ou daquela administração. Também creio que ninguém deve reclamar pelos destinos de Poço Redondo.
Quando, por exemplo, tanto se fala em não valorização da cultura, das riquezas históricas e das demais potencialidades do município, na maioria das vezes tudo é da boca pra fora. Quantos verdadeiramente se preocupam com a cultura e a história de Poço Redondo?
Intimamente, a partir de um comprometimento pessoal, a maioria reza pela cartilha do tanto faz. E tanto faz mesmo, pois se valoriza mais um cantorzinho qualquer ao que se tem de melhor. Lourenço comparou a atual importância de Devinho Novaes e Antônio Conselheiro para o município e a conclusão chegada foi de que se conhece mais o “boyzinho” do que o missionário.
Numa praça de eventos ou num canto qualquer, basta observar quantos da cidade vão aplaudir Geno Vito, os Pífanos da Família Vito, Sávio, Gilvan do Acordeon, Renê, Murilo, Antônio Neto e tantos outros, em comparação aos que lotam os shows dos forasteiros.
Tenho feito vários eventos no Memorial Alcino Alves Costa e a todos convido. Mas quantos vão prestigiar? Chega a ser absurdamente desrespeitosa a atitude da grande maioria dos poço-redondenses.
É um povo que não respeita nada do que é do lugar. É um povo que até premedita a desvalorização de sua própria riqueza histórico-cultural. É um povo que só tem força para criticar, mas sempre age pela via inversa: não demonstra nenhum respeito ao que de melhor existe em sua Poço Redondo.
Sábado mesmo, convidei Poço Redondo inteiro para a inauguração da Sala Arte da Terra do Memorial Alcino Alves Costa. Quantos foram? Conta-se nos dedos. Mas se eu tivesse colocado um show com uma patifaria qualquer defronte ao Memorial, certamente que a rua ficaria lotada.
Até quando isso? A continuar assim, aquela velha prática do quanto pior melhor continuará prevalecendo. E por culpa dessa ampla maioria de poço-redondenses. Por consequência, quem não tem compromisso com o seu lugar também deve ficar de boca calada com tudo que aconteça, seja de bom ou ruim.
Um povo apático, inerte, ingrato com sua própria terra, sequer merece ser ouvido. Mas é esta, infelizmente, a feição desta maioria de agora de Poço Redondo. E não apenas jovens, mas pessoas de todas as idades.
Dói demais dizer isso, fazer tais afirmações, mas soa como um necessário desabafo. Nada se constrói com o descomprometimento e a desvalorização. Chega a ser até vergonhosa tal atitude, mas é o que se observa a cada passa e a cada dia.
Daí, no caso de Poço Redondo, estar corretíssima a afirmação segundo a qual um povo tem aquilo que merece. E o que é que merece essa maioria de poço-redondonses que vive à margem do que seja importante para o próprio município? Não merece nada, absolutamente nada. E será esta a colheita que se terá.
Ou as pessoas mudam suas atitudes, agindo de forma ativa, consciente e crítica, ou o nada será transformado nos seus arredores. Portanto, não adianta criticar administração, pessoas ou situações, se o que pessoalmente elas fazem é ainda mais negativo.
Eu, pessoalmente, desde muito que vivo indignado com tais atitudes. Toda vez que a Família Vito ecoa os seus pífanos na calçada do Memorial e olho ao redor e só avisto uma dúzia de pessoas, tudo dilacera por dentro. E bem adiante, noutras calçadas, dezenas de jovens bebem e brindar suas inércias na vida.
Tudo isso me faz dizer: Poço Redondo afunda-se pelas mãos de grande parte de seu próprio povo.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Reinaldo Leal, Mylla e Bruno, uma gente bonita no Memorial Alcino Alves Costa



Frágeis plumas (Poesia)


Frágeis plumas


Quem dera que o amor sentido
florescesse sempre em primavera
sem que os outonos que têm persistido
não tornassem todo o desejo em quimera

quem dera se esse imenso amor
não fosse diminuído pela incerteza
e assim tão esvaído em seu esplendor
em resto se deixar levar pela correnteza

e chegam as ventanias e os açoites
e nos atiçam como leves e frágeis plumas
e nos vazios solitários inundamos as noites
e escorremos tristes em canteiros de espumas.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – dizem da velha senhora (mas acho que é mentira)


*Rangel Alves da Costa


A velha senhora que vivia alegre, toda contagiante e sorridente, parecendo mocinha cheia de sibiteza, de repente se transformou numa sorumbática entristecida. Gostava de roupa alegre, florida, mas tudo foi transformado em luto fechado. Mas por que assim? Segundo as más línguas, a velha senhora estava assim entristecida e enlutada por causa da morte de seu cachorrinho. Ora, mas uma viúva que só tem um cachorrinho como companhia, certamente que entristece perante o seu falecimento. Contudo, a explicação era outra. Diziam que ela, a velha senhora, possuía um caso com o cachorrinho, que o peludinho era seu amante. E mais: que nas noites era ele, o peludinho, que dividia a cama com a velha senhora, que até dormia entre suas pernas. Creio que seja invenção de um povo que não tem o que falar e vive dizendo asneira. Mas a verdade é que ela, a velha senhora, mandou emoldurar um retrato do peludinho e dorme com ele ao lado. E quem me contou foi a velha senhora enquanto caminhava pelas ruas à procura de outro amante. Melhor dizendo: outro cachorrinho para lhe servir de companhia.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

domingo, 17 de dezembro de 2017

CANÇÃO ÀS MÃES


*Rangel Alves da Costa


Canção às mães, eis o mais belo canto. Canto de um dia qualquer, pois todo dia é dia de todas as mães, vivas e presentes ou ausentes pela partida. Mães separadas de seus filhos pelas circunstâncias da vida ou mães que não faz muito tempo se foram em lágrimas ainda choradas. Mães que não são apenas aquelas que gestaram filhos, que os trouxeram ao mundo entre choros e alegrias, mas que desde a primeira semente cativaram e cultivaram os seus como a boa terra com seu grão.
Mães que sofreram as dores e as aflições da gravidez e jamais desapartaram de seus ventres os filhos mesmos nascidos e já crescidos. Mães de cuidados, de cuidadosos banhos e fraldas quentinhas, de loções e lavandas, de pós e infindáveis carinhos. Mães de ninar, mães de cantar, mães de acordar no meio da noite diante de qualquer ruído ouvido. Mães aflitas pelo choro pequenino, pelo corpo febril, pela enfermidade de seu filhinho.
Mães do esmero na papinha, no mingau, no leito materno colocado na boquinha como primeiro alimento. Mãe pobre e desesperada, de berço de bambu, de esteira, de molambo, mas sempre mãe. Mãe que sente todo o seu filho dentro de si. Mas que não desaparta um só instante para que não sinta preocupação e saudade. Mãe que tanto se orgulha em ver seu filho tomado banho, perfumado, arrumado e fotografado para a posteridade.
Mãe que ansiosamente aguarda o primeiro aniversário de seu filho. Sempre aquela mulher orgulhosa de sua cria. Mãe que silenciosamente chora por ter tão pouco a dar àquele que merece sempre mais para crescer saudável. Mãe que muitas vezes não tem leite nem farinha, não tem fralda nem remédio, não tem qualquer coisa que minimize a pobreza, mas que se reinventa na sua força materna para que seu filho sempre adormeça sem o choro da barriga vazia.
Mãe que se eterniza como mãe, em amor infinito enquanto durar. E que sofre toda vez que o filho já crescido abre a porta para sair, que se atormenta esperando seu retorno, que em preces e orações pede que Deus sempre proteja o seu. E que só dorme depois da certeza que o seu filho retornou em paz. E que tantas vezes se vê diante dos inesperados da vida e por isso sofre todas as dores de mãe.
Assim uma mãe, desde a gestação ao nascimento, num mundo entremeado de alegrias e sofrimentos, mas nada que lhe seja mais importante que o orgulho de mãe. Um orgulho bom que se faz perfaz em amor tamanho que nada da vida pode superar a grandeza de tal sentimento. Por isso mesmo que ela continua tão presente depois da ausência da terrena. Eis que toda mãe é imortal: nenhuma morte jamais conseguiu levar total uma mãe. Ela sempre está ao lado do seu.
Drummond, nosso poeta maior, assim resumiu essa eternidade de mãe no poema Para Sempre:
“Por que Deus permite
Que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite
É tempo sem hora
Luz que não apaga
Quando sopra o vento
E a chuva desaba
veludo escondido
Na pele enrugada
Água pura, ar puro
Puro pensamento
Morrer acontece
Como o que é breve e passa
Sem deixar vestígio
Mãe, na sua graça
É eternidade
Por que Deus se lembra
- Mistério profundo –
Fosse eu rei do mundo
Baixava uma lei:
Mãe não morre nunca
Mãe ficará sempre
Junto de seu filho
E ele, velho embora
Será pequenino
feito grão de milho”.

Todas as mães são, assim, poemas. Tristes, belos, melancólicos, felizes, nostálgicos, amorosos, saudosos, fraternais. Mas todas em versos de um poema: Mãe nasceu para fazer nascer, e nunca perece nos frutos brotados...


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Pensando. E existindo...




Acaso nós dois, numa estrada... (Poesia)


Acaso nós dois, numa estrada...


Acaso nós dois
numa estrada
e acaso a estrada
seja nosso destino
até onde iremos?

afastar os espinhos
e colher as flores
remover as pedras
e semear a terra
dissipar os labirintos
e buscar felicidade

e acaso caminhemos
uma vida inteira
que ainda juntos
estejamos no dia
no dia do adeus
ao chamado de Deus.

Rangel Alves da Costa