SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 23 de abril de 2018

OS BENEFÍCIOS DO CARIRI CANGAÇO PARA POÇO REDONDO



*Rangel Alves da Costa


Estamos certos assim: de 14 a 17 de junho de 2018, o maior evento nordestino, sertanejo e poço-redondense de todos os tempos, pois vem aí o Cariri Cangaço Poço Redondo. E dois aspectos merecem logo explicação.
Por que não desejamos apenas uma edição, dizemos Cariri Cangaço Poço Redondo 2018 para, mais tarde, surgir o 2019, 2020 e assim por diante, definindo as recordações e as saudades perante o ano de realização. E por que entre 14 a 17 de junho e não outra data? Precisamente para que a sua culminância seja na data em que Alcino Alves Costa completaria 78 anos: 17 de junho. E nesta data - como nas demais - haverá uma comemoração digna de sua eterna presença entre nós.
O lema do evento, tendo sido escolhido “Celebrando o Chão Sagrado de Alcino”, também possui sua razão de ser. Ora, será a celebração, a homenagem maior, a comemoração de sua importância, a valorização e o reconhecimento deste sertanejo que sempre teve o sertão no seu coração, que tão bem soube levar ao mundo a saga e a luta do homem sertanejo, que cavou as raízes mais profundas para contar sua história, que cantou em versos o seu povo e o seu chão e elevou o nome de sua terra natal a um prestígio de mais alto patamar.
Considerando o sertão como chão sagrado de Alcino, então serão abertas as páginas de sua história, de sua cultura, de suas tradições, como se fosse o próprio Alcino quem estivesse levando os estudiosos, escritores, turistas, alunos, a população em geral e seus amigos do Cariri Cangaço, ao conhecimento de cada página desse grandioso livro:
Estrada Histórica Antônio Conselheiro (marcos de Canário, da Cruz dos Soldados, de Zé de Julião, de Antônio Canela, da Igreja do Conselheiro, etc.); Curralinho e sua histórica arquitetura e o seu rio de tantas histórias; Estrada da Maranduba (marco de Zé Joaquim) e Fazenda Maranduba (Fogo da Maranduba e Cruz dos Falecidos em Batalha), Santa Rosa e a casa do fundador Ermírio Torres Machado; Serra Negra (João Maria de Carvalho, Liberato de Carvalho. Zé Rufino, Rua Velha, etc.); Avenida Alcino Alves Costa, a Nova Praça Lampião, Praça de Eventos, Memorial Alcino Alves Costa, etc. E muito mais. Muita mais por que também nossa cavalhada, nossa cavalgada, carreatas de carros-de-bois, nossa vaqueirama, nossos grupos folclóricos, nosso xaxado adulto e mirim, a Orquestra de Pífanos da Família Vito, a Orquestra Sanfônica de Poço Redondo, os artistas da terra, os aboios e as toadas, as cantorias e os repentes. E também o desenvolvimento de atividades pelos alunos da rede municipal de ensino.
Será a partir desse livro aberto que o Cariri Cangaço possibilitará o início de um novo tempo de reconhecimento e valorização da história, da cultura e das tradições de Poço Redondo. E assim por que o evento em si se constituirá como num abrir de portas para a continuidade de ações. As obras realizadas pela gestão municipal para o evento, por exemplo, continuarão como obras entregues à população, como equipamentos que a partir de então servirão não só para o embelezamento da cidade e do município como para colocar Poço Redondo - e definitivamente - na rota do turismo histórico. E o turismo permitirá emprego e geração de renda para grande parcela da população.
A Estrada Histórica Antônio Conselheiro (Estrada de Curralinho) exemplifica bem esse descortinamento das potencialidades. Até o mês de junho continuará vista apenas como uma estrada que leva até a beira do rio. Mas depois não. As obras que serão feitas ao longo de todo o seu percurso - onde nada menos que cinco locais receberão marcos, placas e sinalizações - permitirão que a cada passo seja encontrada uma importante informação histórica. E tudo isso se traduz em conhecimento da população, em visitação, em turismo e geração de renda.
Outro exemplo diz respeito à Praça Lampião. Criada na administração Alcino Alves Costa e reformada na gestão Enoque Salvador de Melo, até hoje se constitui no único local da cidade que reverencia a história do cangaço no município. Contudo, uma construção tão modesta que nem de longe permite reconhecer a importância de Poço Redondo no contexto do fenômeno cangaço. Ainda assim, é local onde os viajantes param para fotografar e levar nos seus álbuns de recordações. Mas outra feição será dada à praça para o evento e para a posteridade. As obras ali previstas permitirão que, enfim, todos sintam prazer em visitar e se deixar fotografar.
E por todo lugar será assim. Onde o Cariri Cangaço passar ficará aberta a porta para o desenvolvimento turístico do município. Os frutos logo surgirão para benefício de todos. E mais ainda considerando que a administração municipal logo iniciará o resgate de todas as potencialidades, desde a Gruta de Angico a Serra da Guia, desde o Poço de Cima às ribeiras de Bonsucesso e mais ribeiras. Então, Avante Cariri Cangaço. Avante!


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Chão do sertão





Cangaceiros (Poesia)



Cangaceiros


Quem colocou a canga no outro
ainda chicoteou e esqueceu de tirar
depois ferrou com a ponta em brasa
e cuspiu no rosto querendo humilhar

mas o escravo um dia se levantou
com a força sertaneja que encontrou
retrucou o cuspe na cara de seu algoz
e para enfrentar a injustiça se preparou

se os donos do mundo têm o poder
só resta ao sertanejo mostrar a valentia
e valente enfrentar o mando injusto
e passar a viver o mundo da rebeldia

rebeldia logo tida como fora da lei
pois com punhais e seus mosquetões
tendo as caatingas como sua estrada
e zunindo balas e retinindo em clarões

mesmo sem a canga são os cangaceiros
na defesa e no ataque perante volantes
um sertão valente num sertão sangrento
mas já sem a submissão que se via antes

debaixo do sol e da lua a vida sofrida
mas na alma a certeza da justiça da luta
a bala na bala e o sangue no sangue
vitória impossível que jamais se desfruta

há um silêncio medonho na noite
parece vaga-lume mas não é vaga-lume
as mãos se levantam em busca das armas
e tombam em rios de sangue seu perfume.

Rangel Alves da Costa



Palavra Solta - por onde os vermes rastejam



*Rangel Alves da Costa


Acaso perguntem por onde os vermes rastejam, não haveria melhor resposta do que dizer que rastejam nos ares. Sim, rastejam pelos ares e não pelo chão, pelos assoalhos ou pelas imundícies rasteiras. E rastejam pelos ares por que estão à presença do olhar, são sentidos nas alturas, estão com aparências visíveis. E a cada verme avistado uma vontade sem fim de dizimá-lo para sempre. Acaso estivesse ao chão seria mais fácil, bastando pisar, esmagar, retorcer de tal modo que nada restaria da massa putrefata e asquerosa. O problema é que os vermes não estão ao alcance das solas dos sapatos. E como dar fim a um governante, a um parlamentar, a uma autoridade, aos vermes que corroem nossas vidas? E como dizimar de vez todo mal humano nascido de humanos tão desumanos? O pior é que eles continuam rastejando livremente, todos peçonhentos, nojentos, nocivos, mortíferos até. Mas difícil acertar esses vermes. Matá-los não seria ilicitude de jeito nenhum. Seria apenas legítima defesa. Dizimar apenas aqueles que nos devoram a cada dia.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

domingo, 22 de abril de 2018

PANELA VAZIA, DIA APÓS DIA...



*Rangel Alves da Costa


Panela vazia, dia após dia, ainda há um mundo assim...
Governantes gostam de enriquecer a pobreza forçadamente. Dizem que tiraram milhões da miséria e que não há mais panela vazia, barriga roncando faminta, aquela tristeza danada quando chega a hora do de comer e nada tem. E o mundo revira mesmo quando há menino, quando o filhote apenas espera qualquer alimento. O nada ter dói demais. Num pai e numa mãe, o choro do filho faminto é dor na carne mesmo, é punhalada no peito, é brasa quente nas vistas, por todo lugar.
Muitos ainda imaginam que as esmolas governamentais são suficientes para afastar a miséria da pobreza ou a pobreza da miséria, tudo no mesmo. Mas não. Não adianta colocar esmola numa mão e tirar na outra. Ou será que a esmola é suficiente para comprar remédio, para comprar o botijão de gás, para calçar e vestir, para a feira, para a vida com dignidade? Logicamente que não. Ajuda sim, pois todo pão ao faminto se torna em dádiva sagrada, mas a pobreza continua na mesma feiura de antigamente e de sempre.
Acreditem, mas a panela continua vazia, o prato continua guardado, o menininho cada vez mais magro, por todo lugar. Por todo lugar ainda há um pai em tempo de se acabar por não saber o que fazer para alimentar os seus. E todo dia assim. Por todo lugar há uma mãe escondendo lágrimas dentro dos próprios olhos, por não suportar mais olhar para o fogão sem nada, para a dispensa sem nada, para tudo sem nada. E bem ao lado, ou no cantinho na fraqueza do mundo, aquele pequenino que só quer um pedacinho de qualquer coisa. Meu Deus: como dizer a um filho que ele não vai comer?
Já imaginaram que situação. O menino chorando com fome e os pais sem ter, de forma alguma, o que fazer. Vai dizer à criança que não tem comida pra ela, vai dizer ao pequenino que ele tem de suportar a fome até a chegada de alimento, vai dizer a menininha que ela tome um pouco d’água que a fome vai passar? Que situação, meu Deus. Que situação mais terrivelmente lastimável, meu Deus. Mas fato é que isso acontece ali. Sim, acontece ali, bem ali mesmo, mais perto de você e de sua casa do que você imagina. Querem saber? Querem ter a certeza do que afirmo agora? Então vão, vão até ali, peça licença para entrar num barraco, num casebre, e perguntem se houve janta. Janta? Que nome mais estranho em muito lugar.
Que não se enganem, a pobreza pobre, a pobreza faminta, a pobreza feia e desdentada, a pobre miserável e repugnante, a pobreza ameaçadora e perigosa, a pobreza acintosa e humilhante, a pobreza vesga e troncha, a pobreza ossuda e descalça, a pobreza terrível, existe e bem ali. A pobreza não é feia, a pobreza não é repugnante, mas a sua condição é. Nada mais feio que o ser humano ser humilhado, se judiado, ser aviltado, ser submetido por sua condição econômica. Nada mais repugnante que olhar para uma pessoa carente e nela avistar não um ser humano que necessita de apoio, mas um eleitor ou um escravo que deve ser mantido amarrado na esmola política. Dói, minha gente, dói demais.
Acreditem no que vou dizer e citarei apenas um exemplo dos muitos e tantos que eu poderia citar em Poço Redondo. Olhem para o relógio ou avistem a escuridão. Já é noite. Para os que tiveram alguma coisa para colocar sobre a mesa, o sino do alimento já tocou. Mas bem ali, num mundo para muitos desconhecido e muito mais incompreendido chamado Bairro São José, o sino já tocou e continua tocando sem que nenhum tiquinho de nada pudesse chegar à mesa. Acreditem. Muitas famílias não têm sequer um pedaço de pão. Mas quase todas as famílias com filhos de todos os tamanhos. Então, o que aconteceu por lá quando o sino tocou?
Choros na alma, lágrimas por dentro, soluços velados, rios de dor escorrendo na face e nas entranhas de cada um. No Bairro São José há um povo que sofre, há um povo que necessita de pedaço de pão, há um povo que chora. Sabem quantos pais e quantas mães continuam, agora, chorando no Bairro São José? Batam à porta e vejam as lágrimas. Não estão nas faces, pois correndo por dentro, mas nas panelas vazias. E feito um mar de dor nos olhos dos pequeninos.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


No sertão... mundo meu.



Coração de outono (Poesia)



Coração de outono


Cuidado por amar assim
um coração sem dono
fazendo da vida um festim
pois logo chega o outono

deixar ao vento o coração
ao sopro daquele que chegar
é fazer do amor uma ilusão
e com o amor brincar

um dia sem ao menos esperar
o vento do outono vai chegar
e com fúria vai soprar
e você vai levar.

Rangel Alves da Costa